desembrulho

Quando ela nasceu, recebeu como presentes pacotinhos infinitos de despedidas. Bebê, ela ainda não entendia em palavras o significado daquilo. Mas parecia que tinham cochichado em seu ouvido, pois ela ela olhava demorado pra tudo, pra cada objeto, pra cada pessoa que vinha lhe apertar as bochechas. Ela parecia saber que aqueles momenos poderiam ser as centenas de últimas vezes guardadas no seu armário. E, de fato, não demorou muito pra começar a desembrulhar seus pacotinhos. Antes de completar dez anos, usou alguns “tchauzinhos” de caixinhas pequenas, e também um “adeus” do tamanho de uma bicicleta. Depois de adulta, se achava uma pessoa desapegada, com competência maior pra suportar qualquer perda. Até que foi obrigada a abrir o pacote mais lindo, o mais bem embrulhado de todos. Era necessária tanta delicadeza pra desamarrar as fitas, pra retirar cada camada de papel, cada fitinha colante das beiradas, que ela acabou se apegando de novo ao amor. E agora, por onde ela anda, ainda se podem ver pedaços coloridos das embalagens pregados na barra dos seus vestidos, grudados na sola do seu sapato, esquecidos nos bolsos dos casacos. Quem a vê de longe, pensa até que ela é das mais alegres.

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