quando eu crescer vou fazer fotossíntese

Eu fui ali atender a porta. Era a tristeza. Eu abri. Foi por isso que eu demorei a voltar. Já fazia um tempo que a tristeza ficava rondando minha casa, olhando pela janela, perguntando por mim pra vizinhos e parentes. Eu fingia que não notava, apressava o passo quando a via na mesma rua. Às vezes era noite e eu ouvia ela bater na porta. Era um batido que ninguém mais na casa ouvia, só eu. Então eu despistava e ninguém percebia que eu tinha ouvido um barulho só meu. Algo me dizia que ela não é destas que arrombam portas ou usam violência. Sua única arma é a insistência, é ganhar pelo cansaço. E foi assim mesmo. Naquela noite eu estava muito cansada, de trabalho, de família, de namorado, de joelho que dói e não deixa correr. Era um cansaço vindo de todos os lados, sabe? E foi por isso que eu resolvi abrir a porta de uma vez por todas, deixar a tristeza entrar, colocá-la sentada no meu sofá, e ouvir sem medo tudo que ela queria me dizer. E olha que muita coisa foi dita! Coisas de outras eras, coisas de quando eu era criança. Ela me fez olhar sujeirinhas que costumava varrer pra debaixo do tapete e me deu coragem pra por um fim nelas. Eu joguei muita coisa no lixo, tudo que não se recicla e que eu tentava reaproveitar. Ela esclareceu minhas dores que não tinham causa médica. Foi explicando o porquê de tudo, passando um filme da minha vida , igual no Cinema Paradiso. Então eu fui entendendo minhas roldanas internas e como elas funcionam minha própria dor, como eu produzo lágrima… Vi que faz parte da máquina que sou; e tudo em mim tem que funcionar junto. Não só o cérebro, não só o ovário, também o sistema doloroso com suas células transparentes. Eu deitei na cama e passei um tempo nunca antes dormido. Fiquei dentro e gostei. Acho que finalmente aprendi a sossegar, a domingar. Eu que não durmo nunca de dia, nem depois de almoço guloso de fim de semana, consegui me sentir preguiçosa. E demorei pra acordar, pra escovar dente, pra comer, pra falar. Foi por isto que eu não voltei aqui antes antes. Não é leve assim avisar pro mundo que eu fiz amizade com a tristeza. Tem muito preconceito por aí, obrigando a gente a dar gargalhada. Mas voltei agora e, advinha só: já tive até insônia! As vontades todas e juntas se apossaram outra vez de mim. Tempo. Tempo. Eu aprendi a pedir tempo. E agora haja tempo pra tudo que não me cabe, de novo!

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One Response to quando eu crescer vou fazer fotossíntese

  1. Adriana diz:

    Lindo Pri!!! Realmente não tem como ser feliz, sem ser triste!

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