é mais perto que o perto

corri enquanto corria também a escada. competíamos. cheguei ao topo e vi um salão de chão brilhante. chão desses que muitas pessoas limpam, tantas vezes por dia. então subitamente eu esqueci a razão da pressa. uma vida tão cheia de pressa e, ali, depois de escalar escadas rolantes, eu me perguntei por quê? pra quê? a cada metro quadrado de chão encerado, eu me via mais e mais sem por quê. mais e mais sem pra quê. andar sobre mim deslizava e isso era um medo com ânsia. tentei avistar outro plano, olhando ao redor. todos eram também minha pressa inócua. ninguém me respondia. e o que é pior: ninguém se perguntava. procurei com o olhar um outro lance de escadas, talvez fosse isso. talvez eu ainda não tinha chegado e por isso não entendia. não vi. não havia outro andar. comecei a andar procurando, por procurar. agora assumidamente apegada a um verbo andando. e vi que andava rápido. meus pés também não tinham compreendido. tentei ser mais lenta, fiquei zonza. era estranho pousar sobre um pé de cada vez. antes eu não sentia tanto o chão e, no entanto, parecia me sentir mais firme. eu parecia. era isso. por todo esse tempo eu só parecia. eu não pisava, eu não respirava, eu não mastigava. dormir era manjar de deuses ricos. tentei parar, como doeu! doeu como sepultamento. parar me deixou mais ofegante, me desenfreou! um momento de pânico intenso por estar parada, rodeada, sufocada do que me restava: eu mesma, inteira, me observando. escapuliu um choro verdadeiro que me lembrou a infância. ó, como pode?! eu estou aqui! em mim mesma! a emoção me consumia e o choro de susto foi aos poucos diluindo o nervosismo. as lágrimas foram me lavando do que parecia ser uma casca grossa de sujeira e pó. eu me notava respirando, que estranho. ouvia a respiração e ela fazia um barulho de paz. fui mexendo os dedos das mãos e dos pés, lentamente. ia sentindo cada pedaço do meu corpo como se eu voltasse pra casa depois de uma longa viagem. tomei consciência da minha inteireza e voltei a contemplar o chão que antes me atordoava com o reflexo da minha própria imagem. olhei e vi exatamente o que eu agora enxergava por dentro. vi a paz do meu ser, somente sendo. continuei respirando no meu tom, e segui viagem, com todas as respostas: eu me ouvia.

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2 Responses to é mais perto que o perto

  1. Vou te dizer que quando vc falou sobre o efeito da parada, da pausa, senti como se vc estivesse falando de mim mesma. .. ô trem difícil!

    Saudade de vc, viu?

    Beijo grandão!

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