Maçaneta

 

É uma criança, uma menina esperta, quase gente grande, mas é criança. Tem medo de escuro e do que a mente cria com as matérias primas escuro e silêncio. Viu a mãe todo dia cansar, observou cada gesto e fala da mãe. Aguardava. Mãe ia pra lá com um tio, hospital, prisão, coisas feias de gente grande. E mãe de olho triste, nunca parava o trabalho, nem depois do fim das aulas, nem depois de fechadas as lojas. Sempre uma dor, um alguém fechado dentro de um quarto empoeirado, por querer. Um enclausuramento que abraçava a casa inteira, a avó, a mãe, os almoços de sábado. E parecia bonito, a mãe achava bonito, isso de ficar ali dentro, esperando o dono da poeira abrir a porta do quarto e sair resmungando, agredindo. Mãe achava bonito estar ali pra compreendê-lo, para ampará-lo, para sentir um pouco da dor dele, com ele. Filha achou bonito também por muito tempo, porque beleza era tudo e só o que a mãe dizia, ainda. Pouco mais. Mas filha ficava pesada, triste, cansada das paredes frias. Era uma dor maior que a infância dela, era overdose de compreensão e realidade. Então filha saía pra fora, pra rua, pro Sol. Caminhava, jogava, nadava, pulava, dançava. . Filha puxava a barra da saia da mãe, chamava pra brincar lá fora. Mãe ia um pouco, mãe voltava logo pra dentro. Mãe era a vigília do tio, seus olhos ficavam naquela casa, não importa onde o resto do corpo estava. Então filha gritava lá de fora o nome dos irmãos pequenos, convidava eles pra brincarem na rua. Os irmãos não queriam, tinham medo do Sol; já estavam aprendendo a rotina da porta fechada, da espera, do sofá, dos cuspes de fogo. Filha queria abrir o quarto do tio e fazer faxina, pra mãe ficar tranqüila e despreocupada.  Tentou, mas o dono do quarto cuspia fogo, e ardia nela cada tentativa inocente de ajuda. Dragão cuspia fogo em criança, em velhinho, não tinha dó de ninguém. E então nunca podia a faxina naquele quarto empoeirado. Todas as outras mães queriam tudo limpo. A mãe aquela aceitava um quarto sujo e fechado na casa. Foi assim que a filha se fez sozinha, compreendeu prisão da mãe, fraqueza do tio, prisão do tio, fraqueza da mãe, tristeza de todos. Menina quis ser forte e todo dia comprava porta aberta. Viajou, cresceu, desapegou de muito e aprendeu a não ter mais dó de quem fechava a própria porta. Aprendeu que não se sacrifica uma felicidade por outra, não existe esta troca.  É desperdício e nunca sacrifício válido. Moça, aprendeu que outras mães saíam de casa todo dia, sem nuvem sobre a cabeça. E isso lhe dava esperança. Ficava na beira da praia, no alto de uma montanha, no banco de uma praça. Achava linda a ausência de teto e o céu pelado, todo aberto sobre ela. Delirava com cores, sons e palavras, todas tão suficientes matérias primas pra uma vida viva. Filha vive e é feliz, quase sempre. Mas todo dia, no meio da tarde, filha pára na porta da casa e espera pra ver se a mãe sai. Espera pra ver se a mãe terminou as tarefas de dentro da casa, se foi feita a faxina do quarto empoeirado. Acredita que a mãe vai sair, de roupa colorida, pronta pra passear no sol de mão dada com ela. Filha quer mostrar pra mãe que o céu é o teto mais bonito do mundo, pra mãe nunca mais querer voltar pro dentro escuro. Mas filha também tem um medo e um pesadelo que faz lágrima. É assim que ele aparece nos sonos dela: Chega o dia da faxina do quarto do tio dragão, fica tudo limpo, porta aberta, acabaram os cuspes de fogo, mãe pronta pra sair de casa, aliviada e feliz, com os olhos brilhando de liberdade. Então mãe pára, de repente, e vê fechada outra porta, de outro quarto que acumulou poeira sem que ela percebesse: o quarto dos seus outros dois filhos. Mãe senta no sofá, mãe chora, esgotada. Mãe não sai então mais nunca. A filha sozinha continua esperando, sentada no banco de uma praça com muito verde. Faz desenho de lápis de cera: ela, mãe, pai e os irmãos pedalando no meio do mato, longe do cimento, perto do céu.

 

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3 Responses to Maçaneta

  1. The traveling salesman diz:

    Da licença.
    Cheguei de viagem, e dessas mães eu entendo.
    A mãe da mãe, um doce de pessoa. De leite. Inteligente, meiga, super mãe de mãe para os filhos da filha da mãe. Uns(uma) se identificavam mais que outros com ela. Aparentemente seguradora da onda e das barras. Coisas que visivelmente foi passada para a filha da mãe e pra filha da mãe da mãe. A futura mãe.
    A filha, outra, super ultra doce. Queijo com Goiabada. Mais completa ainda. Acho que por ter passado mais tempo viajando até lá. Atenciosa, ultra mãe da futura mãe e ultra filha da mãe, super tia, super irmã, super sogra, super madrinha, super marida, super cozinheira… O verdadeiro TêDêBê!
    A mocinha na qual ando frequentando a casa nas minhas viagens, uma vez me disse que é as coisas da vida. Que pedras encontradas na vida são para a gente ir juntando para construir uma mansão com elas. Uns vão pegar mais pedras que os outros. E que a quantidade de pedras na qual colhemos, e o peso delas, são porque damos conta de colher e carregar. E isso tem um motivo, pois ensinamos isso aos mais próximos que estão ali próximos para realmente tirar lições dos caminhos percorridos de cada um. E aprender com as lições passadas a nós e principalmente com quem ta perto. Pois mesmo sofrendo por tabela, a carga maior esta com a pessoa ao lado.
    Isso a mãe da mãe passou para a filha da mãe, que acompanhou desde o começo tudo, e que conseguiu passar para a filha da mãe da mãe tudo com uma “tranquilidade” e serenidade devida. Pois convenhamos, não foi nada fácil. E você filha da mãe da mãe, aprendeu direitinho! Ta certo que reclamou mais que as duas(não sei das outras,mas eu sei que reclamou mais), mas ta valendo.
    Sei que parece bem confuso, mas é só ler umas 5 vezes… Que vai entender! Se não entendeu é porque não era a hora mesmo. Um dia é só voltar aqui e ler mais uma vez.
    Não era para ter um inicio, meio e fim. Era só para comentar mesmo. Que eu li e deu saudade. Das três.
    E vou deixar aqui, um pedacinho de uma musica. É claro. E gostaria que você não pesquisasse no google de quem é caso não descubra. Que guarde esse pedacinho, pois uma hora ou outra vc vai escutar ela, e vai ver que tem um nexo com o que foi dito por vc e por mim aqui. O mocinho que deu trabalho para as mães com certeza tem ela lá… No quarto citado. Em meio os discos antigos e fitas k7 gravadas. Tenho certeza.

    “So dont become some background noise. A backdrop for the girls and boys, who just dont know or just don’t care. And just complain(!!!) when you’re not there.You had your time! You had the power!You’ve yet to have your finest hour!!!” Vc, elas, eu e todo mundo!

    Deixe os dedos fritarem. O bobby correr para lá e para cá de curiosidade caso não descubra. Uma hora ou outra ela vai tocar e vc vai conhecer! E vai ainda bater a palminha no refrão!

    Deixa eu ir ali, “que o trem ta chegando. É o ultimo do sertão”.

    • angelina diz:

      hummmmm…bateu uma saudade grande de um super genro que tive o prazer de ter por um super periodo….Que Deus o abencoe sempre and let him sale a lot, mostly in calm and nice waters, feeling soft and good smelling breeze that turns into happiness.

    • ô coisa boa, tão boa delirante que é isso de ver plantado e com flor o querer bem! ô alegria desta vida (às vezes dura, é vero…) é o privilégio de conviver com pessoinhas tão exponencialmente especiais. falando aqui, no caso, da mãe, filha da mãe, mãe da mãe, da minha mãe, da sua, do pai também, de irmão, de tudo! ô sorte que eu tenho! ô saudade carinhosa!

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