Eu como baleias inteiras, em saquinhos eternos de massa cinzenta

Meu pai gosta de assistir essas imagens de animais na natureza, caçador e presa, perseguições longas  quase sempre acabando quando um devora o outro. Meu estômago não parece muito com o da minha espécie. Parece mais de hipopótamo. Mas não, eu ainda não consegui aderir ao vegetarianismo. Evito muito e realmente não faço tanta questão de comer carne, mas tem dia que eu quero e como. E me perdoo. Ontem cheguei de viagem e minha irmã chamou pra ver imagens das baleias em algum Pólo gelado. As cenas duraram poucos minutos, uma foca gorducha tentando escapulir do ataque de várias baleias. Ela subia em pedaços de gelo e a baleia vinha por baixo empurrando para que a foca caísse na água. A foca caía e depois subia de novo, escorregando, cansada, desesperada. Enfim, ela conseguiu voltar para a superfície, com muito custo. Parou na beiradinha, esgotada, os olhinhos tristes de alívio e medo. Dava pra ver os machucados no seu corpo rechonchudo. Fiquei feliz por milésimos de segundo, apesar da dó (que nada adianta) de uma espécie que é mais vulnerável que a outra. Pensei eu que nós, humanos, somos talvez a espécie menos vulnerável, não pelas capacidades físicas, mas pela racionalidade que nos permite evitar situações de exposição e por utilizar ferramentas. Mas enfim, a foca deixou a caldinha pra fora na água. A baleia então só puxou ela de volta, lentamente, para a morte mastigada. E a foca nem mais relutou, tão cansada e resignada diante da existência em forma de bicho sem armas. Bichinho quase sem braço e sem perna. Bichinho mole e desajeitado. Ai, que dor foi ver os olhinhos da foca arrastados. Que raiva de mim por ter ido assistir isso. Que raiva da baleia. Quis imaginar um outro animal que come baleias, um pensamento vingativo e consolador. Desconheço. Mas logo depois vi uma foto na internet de uma baleia encontrada morta numa praia. Investigaram a causa: mais de quarenta sacolas plásticas no seu estômago. Descobri o animal caçador de baleias. O mesmo animal caçador que nunca caça de verdade. Nunca corre, nunca se expõe aos riscos da natureza, não usa os dentes e nem as unhas para sobreviver. O animal que amontoa frangos em barracões superlotados, brinca de fazer luz do sol na hora que quer, brinca com hormônios, mata cavalos cortando-lhes as pernas e esperando o sangue todo escorrer. Já nem tenho tanta dó da foca. Tenho mais dó de mim, que mastigo corantes, conservantes, sangue. Dó deste animal triste que sou. Que desperdiço tanto e ligo a TV em seguida para não pensar no assunto. E compro produtos pelas embalagens bonitas, sem me importar com o lixo que crio. Eu, animal que coloca sacolinhas plásticas no fundo no mar, todo dia, toda hora, e pra quase um sempre que finjo não me pertencer. Eu que sei de tudo, que filmo, assisto e estudo. Maldita racionalidade antibiótica!

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One Response to Eu como baleias inteiras, em saquinhos eternos de massa cinzenta

  1. angelina diz:

    nossa filha, que lindo!!!!e que triste!!!!e que verdadeiro!!!!

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