Adapte-se à luz!

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Edward Hopper, comovido com meu drama, escolheu como tema para um de seus famosos quadros a influência do Rio de Janeiro na minha vida. A obra intitulou-se “Room by the Sea”. Não se sabe nunca qual é a dose possível de liberdade dentro de um coração. Não cabe sem que ele exploda em algum ato prisioneiro de desespero vital. Alguns suspiros foram dados e várias vezes me fugiu o ar, enquanto eu contemplava esta cidade sem poder participar dela. A obrigação prendeu-me por longas manhãs e tardes dentro de apartamentos e bibliotecas. A tela do computador, encharcada de jargões jurídicos, insistiu em parar na minha frente enquanto meu coração tentava assistir a uma peça de teatro ou a um filme. Eu lutei contra a razão até que o ar se tornou rarefeito demais. Até que a tristeza de um enterro paulatino me deu forças (tristeza também dá força!) para gritar socorro. Pedi socorro a mim mesma e me concedi um descanso. Um descanso para abrir as cortinas e observar pela janela. A mudança na cor da luz e a sensação dos raios solares esquentando a pele foram sedutoras demais para uma enclausurada. Tomei fôlego pra dizer à pessoa mais brava e rigorosa de toda a minha família que eu ia mudar a direção do barco. Esta pessoa cruel se perdoou. Eu nasci então, de mim mesma. Nasci pra escrever numa página de internet coisas que bulhufam dos meus poros. E dar minha cara à tapa para a insensibilidade de um mundo ainda seleto e cordial. Fui ao cinema tantas vezes. Passei horas, noites, dias, conversando com pessoas que jamais abriram um Vade Mecum e me fascinando com suas várias sugestões e interesses. Deslumbrei-me com o deslumbre, em versos, cenas, aquarelas. Criei coragem para deixar salto alto dormindo em casa, enquanto eu enfrentava uma noitada de sábado de zero crise. Samba de raiz, gente dançando de olho fechado no meio da praça, casais idosos procurando música na madrugada. A mãe de uma amiga tentou consolar meu coração cabisbaixo de nostalgia antecipada. Disse que também morara no Rio quando jovem e que a experiência foi muito boa para mudar seu jeito de pensar, abrir sua cabeça. Ela aceitou o Rio como uma passagem e resignou-se ao lugar que a pertencia. Eu não sei se pertenço a lugar ou a gente nenhuma. Procuro em mim esta etiqueta de “Made in”, mas não encontro. Fico pensando porque me fascina tanto a arte. Fico pensando se gosto de escrever por desespero de causa. Ou se tenho um compromisso com uma essência ainda muda, e por isso estaria rabiscando para um dia ser instrumento dócil. O que enxergo são caracteres exagerados de lamúrias e nada de começo e fim. Alguns personagens que ainda se chamam Ela e Ele. Algumas cenas sem mãos dadas. Alguns desenhos tortos. Um livro infantil em arquivo de Word que, tão logo aberto na tela, sofre centenas de modificações compulsivas, seguidas de um suspiro desistente em forma de “Save and Close”. Fico às vezes tão cansada e enjoada de mim mesma. Dá vontade de parar um pouco e sentar num banco de praça pra desrespirar. 

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One Response to Adapte-se à luz!

  1. mom diz:

    Oh dear….que lindo!!!!

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