Rendez-vous, mamú!

 

Uma amiga conversava comigo sobre esta teimosia do desejo, insistente em procurar o que o racional deliberadamente já recusou. Ela se sentia revoltada e repetia: – Como pode o ser humano, o único animal racional, ceder assim pro seu lado bicho, sabendo (racionalmente) que aquilo não é o bom, nem certo, nem recomendado?! Eu tentei falar pra ela minha opinião, mas não conseguia colocar em palavras. Aliás, é uma opinião nem formada nem formável, na minha opinião (hihi). Tinha muito em mim do livro da Clarice que li nesse fim de semana (Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres); tinha muito disso tudo que o livro traz inexplicavelmente, em forma de um aprendizado indescritível. O que eu acho, primeiro, é que a gente deve parar de colocar razão e paixão em lados opostos de um ringue. Não tem briga, não deve haver murro, nem chute. Porque os dois se complementam. E ainda que sejam absurdamente contraditórios, devem ter a maturidade da convivência tolerante. Assim como nós sabemos que um irmão irritante foi ali colocado para que pudéssemos evoluir no embate cotidiano. A gente precisa abaixar a guarda, sair desta defensiva. Se a pessoa só te faz bem por algumas horas e depois gera ansiedade, angústia, tristeza, então é hora de perdoar a si mesmo por ainda assim desejar o prazer momentâneo. E perdoar-se mais ainda por desejar a dor – que se sabe – acompanha aquele prazer. E então usar a técnica universal da mente positiva e determinada: pensar no tamanho da sua paz de espírito contínua, em relação ao tamanho daquele prazer de poucas horas de paixão. É uma das coisas mais difíceis de se fazer no planeta, verdade! Eu às vezes penso isso na hora de comer: que tamanho tem o gosto desta batata frita perto do tamanho da minha vontade de ter um corpo saudável? Aí parece que, quando você deixa o objetivo maior lá no fundo, grande e belo, a pedrinha do caminho vai ficando desfocada e cada vez menor. Às vezes dá até nojo da batata frita porque a gente começa a enxergar óleo escorrendo, sabe?! Mas é difícil demais mesmo, porque nós não temos uma cultura de observar pensamentos e de conduzi-los. Nós não costumamos perceber os pensamentos que nos deixam tristes, os que nos estimulam, etc. Grande parte do que pensamos segue um mero padrão de marketing de consumo. O desejo é plantado por mensagens subliminares e fica quase impossível lutar com esse inimigo invisível e onipresente. Discernimento pode levar a uma formação acadêmica filosófica. Mas pode também levar ao amor pleno. E mais plausível: pode colocar a paixão na parede!

 

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