criatividade, pra quê te quero?!

O negócio é o seguinte: a gente deve sempre oferecer pro outro aquilo que a gente costuma comer no café da manhã. Não se deve perguntar: -O que você gosta de comer no café da manhã? Eu quero comprar o que você gosta. É bem simples: quem pergunta não propõe. Eu ia ser bem triste – não sei exatamente se triste mesmo – se eu nunca tivesse experimentado o café da manhã de outra pessoa. E mesmo que eu não goste e não absorva nenhum nada para os meus hábitos, de certa forma sempre muda alguma coisa. Porque, uma vez conhecido o outro café, a gente passa a olhar pro nosso pão integral de cada dia ciente de que, na Alemanha, uma família muito loira está sentada à mesa, quebrando a casca do ovo quente com a colherzinha. E, in fact, eu raramente como pão de sal com manteiga, café preto, rosca de canela com manteiga, fatia de bolo. Porque eu experimentei o café da manhã da minha primeira companheira de república e descobri que uma torrada de pão integral com requeijão light ou queijo cottage poderia funcionar muito bem, obrigada! Isso pode até ser uma metáfora do corte do cordão umbilical, na psicologia. Não, mãe, obrigada. Eu adoro pão com manteiga e o seu café cheiroso com açúcar. Mas eu quero um novo paradigma de café da manhã, pra mim. E aí, se alguém vem me visitar na minha casa, o que eu ofereço? O que eu como! Ora, bolas. Ora, hamburger de soja. Ora, berinjela refogada com cebola. Ora, suco que nunca tem! Ora, pão de forma com mil grãos e queijo minas com azeite e café solúvel. Ora, uma fruta, se a sorte tiver me guiado ao hortifruti naquela semana. Uma pessoa apaixonante é uma pessoa apaixonada e sobre isso eu já muito refleti. Mas antes eu refletia mais mal intencionada: eu queria ser apaixonante; eram bem maquiavélicas minhas paixões intercorrentes. Hoje eu entendo melhor que o que mais me deixa apaixonada é sentir que eu sou terra molhada e alguém está me brotando. Se eu converso por uma hora com alguém sem perceber o que está se passando ao redor, já é sinal sério. Se no outro dia ficam desfilando na minha cabeça o nome dos filmes que a pessoa comentou, as palavras que ela ligou numa frase, o jeito de olhar pra baixo e fugir da minha inspeção. Se isso preenche meu dia seguinte, então já elvis: eu quero ver o café da manhã dela nascer! Aí é aquela velha e intensa saga de pesquisas incessantes no Google e no facebook, pra desbravar aquilo que, eu imagino, a pessoa já desbravou. E eu vou por aquela mata sensualmente fechada, seguindo os passos imaginados na vegetação imaginariamente amassetada por suas pegadas prévias. Vou entrando, lendo palavras-chave. Assisto uma vida de trás pra frente e sinto a dor que a pessoa sentiu naquele dia que eu nunca nem a conhecera. Naquele dia em que eu queria apertar sua mão enquanto escorriam as lágrimas. Sinto as cócegas também sentidas, e até o beijo na boca que ela deu em outro alguém distante na adolescência. Nessa hora eu sei que me embrulha o estômago – porque levo um murro por dentro, mas mesmo assim eu finalizo a imagem do beijo e do amor. Um pouco mais pra sofrer, do que pra entender a emoção daquelas circunstâncias. Não, eu não estou pensando no que você fala e sente agora, olhando pra ela. Não sei se a culpa te aperta na orelha esquerda ou na direita. Mas eu vi que na geladeira tinha um mate que você comprou e um suco de limão que eu comprei. O suco era muito igual limão de verdade. Azedo. Eu tirei a pedra de gelo que você fez. Sentada na canga, sobre a areia, estendi meu copo pro galão prateado do suco de limão. O céu estava estourado de luz por detrás da camisa laranja. Eu estava mais quente que você, mas ainda assim suava menos. Enchi a metade e levei o copo pro galão da direita, era a vez do mate. O copo se encheu e eu bebi rápido um gole, pra dar tempo de pedir um chorinho. Pedi: – Um chorinho, por favor!

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One Response to criatividade, pra quê te quero?!

  1. mom diz:

    amei!!!!ta ficando muito craque princesa!

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