na primeira pessoa cai a chuva

Um ser amigo meu, chamado Humano, veio ao mundo insatisfeito. Todo dia, ou melhor – todo fim de dia-, vinha brotando nele uma inquietude, um desejo de mudar algo. Misturava-se um pouco a ansiedade na angústia, e a revolta na vontade de uma explosãozinha. Ele observava as pedras, os galhos das árvores, e desde novo começou a criar objetos chamados carinhosamente de ferramentas. Sempre vinha o Humano trazendo uma coisa nova nas mãos, e explicando para quê servia e como foi que ele percebera a possibilidade de sua criação. Quando não vinha assim com um pedaço de pau transformado, é porque trazia algo ainda transparente: uma ideia. Era um transparente assim que brilhava bastante no olho dele! Mas tinha também dias em que ele aparecia murcho e opaco. Era quando ele achava que não ia conseguir produzir o que tinha em mente. Porque ele sentia que lhe faltava uma matéria-prima, uma tecnologia, um ajudante, ou até mesmo alguém com quem pudesse compartilhar e amadurecer suas ideias mirabolantes. Nesses momentos de desilusão e desesperança, eu percebia a angústia de Humano chegando, antes mesmo dos passos dele. Vinha a insatisfação puxando-lhe o queixo pra quase dentro do pescoço, e afogando o olhar nos próprios passos lentos. Ele pedia logo uma dose de pinga, ou um cigarro. Tragava o próprio vazio com a gana de quem quer soltar pedaços de si junto com a fumaça. Vez ou outra ele implorava, bêbado, aos colegas, que jogassem mais uma partida de cartas, e mais uma, e mais uma. E apostava nas cartas aquela força toda que não tinha mais para apostar em si. No dia seguinte me vinha sempre a dúvida se o Humano ia sentir a insatisfação- na vergonha- forte o suficiente para lhe fazer produzir uma nova invenção que apagasse a lembrança da fraqueza do ontem. Ou se ia acordar ainda mais fraco e pedir nas doses de pinga outro esconderijo pra sua inquietude branca. Eu falava pra ele: sai desta mesa de bar, sai desta mesa de jogo! Falava pra ele sentar numa escrivaninha larga, cheia de espaço vazio e organizado, onde as idéias dele pudessem se espalhar em forma de matéria-prima nobre. Uma escrivaninha sem distrações, sem poções mágicas de conformismo barato e efêmero. Uma superfície reta pras tortas emoções que lhe geravam essa necessidade de criar, de aprimorar, de se surpreender. Porque o que eu acho que meu querido Humano buscava mesmo, todo fim de tarde, era uma dose de auto-aceitação. Era uma forma de expressão do âmago que nem ele mesmo decifrava, mas sentia nebuloso e denso. Eu tentava a todo custo fazer o Humano enxergar e moldar sua dor diária em expressões de alma palpáveis. Eu chamava ele pra correr, pra pular, pra rolar no chão até que a energia criadora se acalmasse para pousar na escrivaninha lisa à sua frente. Era muito feliz o dia em que o Humano não pedia gole de fuga nenhuma. Porque era o dia em que ele se sentia um ser pleno, vivo e divino em si. e eu me inspirava muito naquela vitalidade dele.

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