“Digite o título aqui” (aí não. aqui!)

Quando se acorda sem vontade de acordar. O lençol está mais macio, deslizante, carinhoso. Empurra-se a si mesmo pelas ruas. Senta, levanta. Pisca. Digita pousando os dedos sobre o teclado, força da gravidade pura; não é aquela vontade de pressionar letrinhas sedentas. Fico com preguiça de mim mesma, do tanto que eu sou sempre a mesma coisa errada e torta. Tudo bem, é isso mesmo, escancarado: eu tenho medo de nunca conseguir me relacionar de verdade e pra sempre porque sou “complicada demais”, “durona”, “seca”, “exigente”. Porque não cobro, não manifesto, não choro. Tem terapia rolando e sempre rola exigência na pauta. Minha psicóloga me acha a pessoa mais controladora do planeta. Ou melhor, ela acha que eu me acho a pessoa mais controladora do planeta. E insiste em me contar que eu não controlo nada, nem ninguém. E ninguém controlaria. Ok, eu concordo que geralmente preciso de um plano pra semana. Para o dia, definitivamente: que bolsa usar, o que levar de lanche pro trabalho, um casaco pro ar condicionado, uma pashmina pro vento do mar. E fechar a hora da atividade física, equilibrar distância entre refeições, subir de escada pra não ser sedentária, e fazer unha num horário que economize. E planejar viagens, ter sempre um passeio ou um programa diferente para o final de semana ou para o final do mês. Planejar e controlar são primos? De primeiro, terceiro grau? Irmãos? Gêmeos? Eu explico pra terapeuta que eu preciso de perspectiva, preciso preencher meus pensamentos porque eles já me preenchem demais e eu tenho que me sentir senhora de alguma coisa. E eu digo que minha paixão rotativa pelas coisas, pelos cursos, pelos filmes, pelos homens, tudo isso sou eu tentando me assenhorar. Ela é enfática: você não se apaixonou por nenhum deles, é só criação de personagem, de sentimento, de estória. A Priscila ama tanto como cada homem misterioso, quieto e bronco que ela platoniza. Ela precisa deste tipo enigmático e sem graça porque aí pode recheá-lo todo com a própria imaginação criativa. A Priscila ama sozinha, conversa sozinha, faz amor sozinha. Tudo se resume, enfim, na minha incapacidade de começar a criar no papel. Porque se eu me permitisse escrever cada cena de encontro sonhado, com o nome do personagem (que no fundo pouco importa), eu me libertaria na vida pessoal. Se tudo isso excessivo que eu penso, diante de cada olhar e de cada palavra xoxa, viesse a tona em alguma forma de expressão concreta, eu estaria livre e leve pra ser mulher senhora. E mais, uma vez: enfim. Enfim, eu não sou escrava da terapia. Enfim, meu discernimento vai além do que ela diz. Enfim, meu discernimento vai além de muita coisa e pra que cargas d’água que isso serve, hein? Não assistir novelas, não falar de maquiagem, não cobrar telefonema de mocinho carioca. Desligar o chuveiro enquanto ensaboa é discernimento ecológico. Não comer foie gras, é lógico! E não acreditar em papo de carioca malandro é sensatez nível I. Aliás, ouvir de um carioca que você é durona e complicada?! Que marra! Que marra?

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