“tem que afetar. é afeto!”

 

tem dia que eu sinto  que moro dentro de um tupperware. perna dobrada. braço. dói junta. dói o espaço. e a falta dele dói. também. dói o dentro que é fora. e o fora que não sai de dentro. grito não liberta. embaça mais. tudo embaça. vi essa peça de teatro que mexeu comigo. tudo continua mexendo comigo. mexe no dia, na hora. cai lágrima e dói o peito. mas não pára. passa uma semana e mexe de novo. lembra uma cena, uma fala, um jeito de mexer as mãos. tudo me afeta em câmera lenta e em câmera rápida. afeta, “tem que afetar! é afeto!”. a gente vive sem viver e prende coisa viva dentro de tupperware. a gente adora lacrar, impermeabilizar. a gente ganha experiência no trabalho pra aprender a não chorar com o trabalho. a gente seca toda a emoção e não deixa cair café em lugar nenhum. nem café, nem chá. lágrima mancha folha de processo. lágrima é proibido no estatuto. sorriso é só pra bobo que quer ganhar mais serviço. o macete é entrar no tupperware e hibernar. sai do ônibus. ar condicionado. restaurante self-service  à quilo. põe agrotóxico pra dentro. hormônio de frango. refrigerante. não pensa agora não. não. não pensa, meu filho. foi ao cinema. não entendeu o filme? não pensa, meu filho. viu a peça, não entendeu? quem não entende é burro? quem não sente é o quê? sente o próprio bafo na nuca e chora um grito mofado de mar.

assista cucaracha

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