A beleza vem antes do olhar

 

 

O projeto infinito de escrever review de filmes. O projeto infinito de conhecer cinema. Algumas tentativas já escorregaram na leitura demasiado pessoal. Em lágrimas, família, e cartas de amor. Escorrega mesmo e assim será sempre. Como chão sendo lavado com água, bastante sabão em pó e uma vassoura de cabo de plástico. Hoje sessão Festival do Rio de Cinema. Lotado. Gente bonita de pupila. Eu fui saltitante na calça jeans larga, moletom cinza velho, e tênis. Tudo com bastante poeira da aula de Marcenaria, porque logo hoje a lição era lixar madeira. Dei uma sacudida antes, mas limpa e maquiada eu não fiquei. Nem cheirosa. Nem gostosa. Na verdade, gostosa eu me sinto exatamente nestas circunstâncias, com roupas de liberdade. Um dia acho um macho que sopre bem forte a fuligem e enxergue a belezura toda com deslumbre. Um dia. A sinopse prometia irmãs entre carinhos e brigas. Brigas de irmãs. Carinho de irmãs. A escola maior e mais completa do mundo que é o dividir vida e rotina com irmãos. Aprender a lidar com diferença na pele, no pêlo, no QI, no metabolismo, no cheiro, no caráter. E na bondade/maldade que surpreende inusitadamente um mesmo clã. A saudade, o medo do sozinho e a esperança do junto de novo. A família que preenche e esvazia uma mesma casa. Melancolia, nostalgia? O que é um feto? Onde mora um feto? Recortam-se partes da casa: o começo da escada, os objetos como que deixados na mesma posição há tanto tempo. Dá medo de mexer naquilo que já se foi pra além da morte. Nunca se sabe quando a dor está terminando ou quando ela pode latejar ainda mais. As músicas são ouvidas com os olhares brotantes. Tem Xuxuzinho invejosa, tem a irmãe boba que não delimita o próprio espaço. E vista grossa pra vários defeitos, de dentro e de fora. Minha irmã adorava o macarrão que fazia quando a gente morava junto. Ela comenta de vez em quando com um gosto bom na boca e tenho vontade de fazer de novo o molho básico de tomate com bastante cebola, caprichar e sentar pra ver ela comendo com cara boa. E tenho vontade também de disputar lugar no sofá, controle remoto, o último danoninho da geladeira. Saudade de sair brigando pela casa, arremessando chinelo a 300km/h. mas vai todo mundo saindo aos poucos, meio que sem avisar e sem se entender. Vai ficando uma casa cheia de armários e de eletrodomésticos barulhentos. Fica muita fotografia também. O que importa no fim do filme é que a menos magrinha é a mais charmosa e a mais amada. E no fim dos filmes que não se fez tratamento da imagem pra perdoar celulite, estria e espinha de adolescente. O que importa é o mocinho dando um abraço de urso demorado e fungado. Abraço de urso que eu tenho vontade de dar em gente que anda por aí de moletom fofinho.

*Do filme argentino “Abrir puertas y ventanas”.

 

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2 Responses to A beleza vem antes do olhar

  1. Moleton fofinho, calça larga e chinelo dentro de casa. Aí sim estamos todos gostosos e de bem com a vida, pois de bem conosco.

    E a aula de marcenaria? fiquei com uma pontinha de inveja… inveja boa 🙂
    Preciso ir ao Rio te visitar.

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