Muleta

 

 

Uma muleta é uma coisa muito angelical. Angelical etimológico de anjo da guarda e, por isso mesmo, também celeste. É o que a gente usa para reapreender a andar. Ser muleta é coisa nobre, e não é qualquer um que nasce com esse dom. Com certeza alguém seleciona os candidatos mais fortes, pois se valesse muleta fraca, os tombos seriam cada vez mais graves e cada vez mais sem cura. Apesar dessa beleza toda no papel que desempenha, um dia uma muleta desabafou não agüentar mais ser apoio pro outro. Não dava mais conta de ficar sempre ali, segurando a barra no momento de dificuldade do convalescente, e depois ser simplesmente jogada às traças, abandonada. Falou que havia sempre uma ingratidão absurda por parte daqueles que a usavam, e que a maioria sempre saía saltitante e feliz, de mãos dadas com outro, sem sequer dar-lhe um abraço de “tchau, obrigado”. Ela me confessou o desejo íntimo de ser útil pra sempre, ainda que isso significasse a eterna convalescença do seu dono. Queria ser mulher de um homem só, ter filhos e netos almoçando numa mesa grande de família. Disse que queria ouvir “eu te amo” em dias felizes ou tristes. Eu fiquei meio sem saber o que dizer, porque percebi que a muleta não compreendia ainda o funcionamento da troca de papéis no universo. Ela não notara ainda que só recebemos uma nova função após termos acatado a anterior, cumprido a mesma com excelência, e, principalmente ter nos resignado com os ossos daquele ofício. Realmente é uma constatação um pouco dolorida que leva um tempo e várias feridas. Mas quando a gente pega o jeito, fica tudo mais leve e menos trabalhoso. Só não dava pra explicar, assim, na lata, que ela só deixaria de ser muleta quando não mais se importasse em ser muleta para sempre. É coisa difícil e parece exercício de raciocínio lógico, de silogismo e etc. Então eu pensei em desenhar pra ela uma explicação sugestiva de como ela deveria agir para ser sempre acompanhada e lembrada. Sugeri que ela se esforçasse para transmitir assim um ar de mão amiga, mais que de muleta convencional. Falei para ela se imaginar com a aparência de uma mão bem duradoura, dessas que são dadas para sempre. Então quando alguém estivesse procurando aquele aperto forte, que leva pro ombro amigo, e até pro beijo apaixonado, poderia sentir na muleta uma esperança verde, uma confiança inexplicável. Uma coisa quase de mensagem subliminar em propaganda de televisão. Se ela abafasse um pouco a aura de muleta, e deixasse aflorar a mão de companhia amada, então talvez acabasse caindo nos braços certos. Na mão da pessoa que disfarça na muleta a procura de uma companhia transcendente. Poderia então ter um casamento assim, sem doença e sem curas que machucam. Entreguei o desenho que parecia o primeiro desenho do pequeno príncipe, em técnica e peso. E falei pra ela que, quando eu crescesse, eu queria muito ser também uma muleta, pra poder ter também aquelas asas de anjo.

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