“Teu olhar mata mais. Que atropelamento. De automóvel.”

 

É meio que bem assim mesmo: eu tenho ouvido música brega com outros olhos. Os mesmos ouvidos, mas com olhos diferentes. E não é que tudo mora mesmo no olhar?! Quantas músicas, poemas e telas falam do olhar do amor, e ainda assim a gente parece não conseguir estabelecer um diálogo com ele? Eu vou tentar um dia parar na frente do espelho e conversar com meu olhar. Vou testar se ele diz raiva quando eu olho raiva; se ele diz fome quando eu sou fome; se ele pede beijo quando eu quero tudo horizontal e junto. Vou pedir pra ele gritar amor por mim, bem alto e em boníssimo som. Nesse corpo da gente que nos desobedecesse tanto o dia todo, não é de se surpreender que os olhos falem russo enquanto se é um analfabeto brasileiro. Tá rolando uma mudança muito forte de paradigma. Antes eu observava essas pessoas óbvias, extremamente apaixonadas e entregues, exalando paixão, e eu só sabia lamentar por elas, por tamanha demonstração. Eu ficava com dó porque elas pareciam sofrer muito e eu sentia que elas seriam sempre menos amadas porque tinham as carências e desejos tão expostos. Hoje eu só sei invejá-las. Vejo nelas uma felicidade e uma completude que, eu acredito, nunca terei. Uma completude de quem pode sim ser muito mais feliz, ainda que corno, ainda que manso, ainda que sozinho e abandonado. Porque hoje, pra mim, felicidade é tão somente uma coisa que a gente deixa escapulir de dentro da gente, sem preocupação com inconveniência nenhuma, sabe?! (assim, como um pum! rsrs, lembrei da Letícia Letuce que coloca essas palavras de um jeito tão livre que fica cheiroso). Mas é isso mesmo de ser sincero com o corpo e através do corpo. É dar um tapa se o tapa coçar na palma da mão, e dar um abraço apertado se a pessoa couber dentro da gente. É dar uma mordida porque tem fome insaciável da pele. Dar um grito forte pra dizer que quer a pessoa ali dentro pra sempre. Não vale mais isso de ser mudo e achar mudez um charme. Isso passou, esta fase do mistério sedutor e envolvente. Passou e agora o óbvio me hipnotiza. Porque quando isso for óbvio, vai sobrar energia cavucante pra todo o resto do mundo, principalmente pros livros e filmes. Quando essa felicidade significar sossego e suporte, o carrinho vai pegar no tranco. Aí seguiremos de automóvel amarelo, janelas abertas, com vento batendo no rosto e a música bem alta, incomodando o carro ao lado (blindado com gelo e gravata). Um amigo que eu vejo poucas vezes conversou comigo sobre isso de a gente criticar nos outros coisas que a gente não consegue criticar (construtivo) na gente mesmo. É meio aquilo que eu sempre falo de quase toda crítica ser uma auto-crítica velada. Deu um gosto muito bom ver esse amigo liberto, feliz, de essências latejantes no olhar. Eu acho que estou ficando mais assim, óbvia e transparente também. Mas ainda falta ser rastejante e implorante. Falta chorar fácil, gozar fácil, fazer pum fácil. Não sei se fico esperando o outro começar pra eu poder tomar impulso. Impulso pro olhar que fala português bem claro e explícito. Enquanto isso o ar falta ainda e pode faltar mais quando for um rarefeito independente de mim. Vou matricular retinas no curso intensivo de amorês.

 

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