Terça-feira tem terapia dentro

 

Iniciei terapia com uma psicóloga muito recomendada (não explicitamente) por uma amiga. Na verdade, a desenvoltura, a leveza e a praticidade com que esta amiga coordena seu cotidiano e relações pessoais fizeram inevitável propaganda da tal profissional da mente humana. Logo na primeira sessão, veio a pergunta que não pára de ecoar na minha cabeça desde então:

– “O que você quer?”

Afinal, Priscila, o que você quer? Hein? Ei, você aí, tá me ouvindo? O que você quer?

Fiquei num estado de boba paredeada fingindo que não era comigo que falavam. Lembrei-me da história de um menino que tomou chá de cogumelo e estava lá no auge da sua maluqueza quando os pais chegaram em casa. Ele então começou a se esfregar na parede, esfolando a cara, repetindo, pra si mesmo e para o casal atônito, que não podia conversar porque era uma lagartixa. Pasmem!

Pois é, eu preferia, inclusive, ser uma lagartixa – pra ser menos monótona e pálida que a parede. Mas não, não… não é essa a resposta e nem é essa a vontade, deveras…

O que a gente quer do fundo da alma – e que as psicólogas nos interrogam com a destreza de um jardineiro que cavuca a terra pra plantar semente – nunca é uma coisa nata, e nunca é só de alma também. Só se admitirmos aquela teoria que um dia aprofundo sobre o mundo ser todo de alma e para as almas, sendo as experiências físicas mera ilusão/criação das mesmas (fica pra próxima encarnação esse estudo!).

Bom, o que quero dizer, enfim… (“Putz, Pri, você é muito complexa” – sussurraria uma amiga ao ler tantas linhas desnecessárias acima) é que o nosso querer se condiciona a quereres outros. Que o nosso querer se modifica e renasce para agradar aqueles que amamos e cujo amor pretendemos sentir retribuído. E, nesse sentido, a pergunta da psicóloga pode sim ficar sem resposta porque a água do rio mudou, ora bolas! E mudou agora de novo, e de novo, e de novo… e, sinto muito, quem sou eu pra conter esta natureza criadora de fluxos contínuos, revigorantes e aparentemente eternos?

– “Eu queria então ser uma represa, Dra. Psicóloga. Queria ser uma represa para me conter”. Hummmm… seria uma resposta poética, talvez. E de tão poética, incompreensível. Matutei por quase duas semanas, incluindo um período de férias na casa dos pais que me deixou bem perto do meu “eu infância-adolescência”. Ainda assim, nada de inspiração concreta sobre a danada da pergunta.

Então eu simplesmente criei coragem pra responder a ela que eu realmente não sei o que quero de verdade. Pronto, NÃO SEI!  E acho que até aproveitei pra contar também que meu pai não sabe isso até hoje e que eu achava isso de uma instabilidade incômoda e interessantíssima. Dei outros nomes também, de pessoas que eu admiro e que se atormentam com esta dúvida por décadas e décadas.

Eu entro em pânico pra dizer o que eu quero, assim, com tanta doação psicológica de mim mesma. Poderia até dizer de forma convincente para algum desconhecido, na mesa de um bar, no auge da cerveja e do papo de tonto. Em alguns momentos eu até me convenci que queria algo específico e estudei, corri atrás daquilo com uma gana surpreendente e incomum. Mas sempre passa, sempre muda a graça. E nem é porque eu exauri ou porque dei o máximo de mim.

Acho que o que eu quero é querer outra coisa a cada dia, e quero morrer querendo mais, pra não desistir da vida antes que ela desista de mim. Eu quero conhecer as pessoas que podem me alimentar de um mundo novo, com música, cultura, arte. Quero bisbilhotar os interesses alheios e fazê-los meus por puro amor curioso do funcionamento das mentes humanas. O que eu sei que me faz bem fazer e que, portanto, eu “gostaria” de fazer com freqüência é um tanto incrível e eclético de coisas. É dançar, comer coisas gostosas, beber bons vinhos na companhia de bom queijos e beijos. É contemplar arte estampada nos painéis mais inusitados e não apenas em revistas, blogs, filmes, exposições. É admirar peças de decoração e ambientes desenhados com amor e afinco. Aprender a desenhar com alguma técnica tudo que meu cérebro desenha de forma automática e ainda inexpressível ao resto da espécie. É amar muito e sem “pré-ocupações”, amar toda noite e em qualquer cama e com qualquer calcinha. Amar repetido e exponencial e agradecer à memória celular por ter proporcionado tanta “sentição” no reconhecimento de um cheiro.  Amar sem medo de ser trocada ou enganada, e me sentir escolhida com precisão. Abraçar pai e mãe todo dia, e dar pitaco na vida dos irmãos como uma boa e chata irmã mais velha. Abraçar avós, primos, tios, amigos de infância com uma freqüência minimamente mensal. Escrever com total liberdade – de horário, de formato, de termos, de língua, de pudor, de perdão. Escrever porque digitaram na lâmpada da minha cabeça e porque sou mera funcionária do meu teclado mental. Descobrir uma forma de anotar no escuro e embaixo do edredon os pensamentos e idéias insistentes em pipocar toda vez que apago a luz do quarto e me deito na cama (pensamentos absurdamente mais interessantes e tentadores que os produzidos na vigília do Sol). Pedalar muito como transporte diário e também em viagens longas e audaciosas. Explorar lugares novos através da descontraída observação de fisionomias locais. Reconhecer em cada pessoa de cada outro mundo algo que se filtre numa essência humana inafastável e acolhedora. Aconselhar amigas em casos de amor, sem usar palavras expressas de conselho soberbo. Dar moedinhas de arte toda vez que a carência humana me pedir esmola. Escrever livros infantis pra estimular discernimento e doçura, e ilustrá-los eu mesma com a ajuda de alguma tecnologia intuitiva em forma de software. Ser mais sutil a cada dia pra me sentir uma roldana importante na máquina invisível e silenciosa dos acontecimentos mundanos. Ser mais serena pra ouvir respirações alheias. Ser mais meiga, mais humilde, mais plena.

Será que tudo isso ainda não forma um (o) verdadeiro querer? Será que isso tudo é só meio para um querer maior que eu ainda não consigo visualizar? O que tem de comum, qual o denominador? É amor? É paz?

O que eu quero pra ontem, Dra. Psicóloga, é alguém que me compreenda sem eu nada dizer. Nem pergunta torturante, nem resposta encomendada. Eu quero sentição pura e simples…

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Tá na hora do cuco sair de casa!. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s