Mão no pescoço me guia

 

Oi papai. Hoje é dia do reconhecimento da paternidade. Pra quase um mundo significa descaso meu não estar aí ao seu lado com um presente embrulhado nas mãos. Pra mim também vem uma culpa, uma consciência pesada por não ter me esforçado mais em horinhas de viagem. Mas isso também parece uma soberba, porque afinal de contas eu achar que minha presença seja essencial demonstra já uma supervalorização de mim mesma, feita por mim. É dádiva ter um pai que chora minha ausência e se alegra com minha presença. É dádiva que, quando inexiste, causa dores das mais profundas em uma alma. E diversos outros problemas de auto-aceitação. Mas eu bem sei que a presença que lhe faz falta não é a minha ou dos irmãos, aí, por um fim de semana. Na verdade acho bem que você aí é passarinho em gaiola, espiando o céu gradeado. Assim sendo, prefiro te soltar de vez em quando pra respirar o mundo de outros verdes e cinzas. Prefiro te trazer pra perto de mim, quando dá. Não tenho também um presente. Já fui, por muito tempo, obcecada em comprar presentes de agrado certo e perfeito. Gastava uma energia e várias preocupações absurdas. E também muito tempo, porque o perfeccionismo é íntimo da indecisão e nos faz tentar abraçar todas as opções existentes antes de eleger a magnífica. Como se isso fosse possível. Então, só me resta admitir que não lhe comprei uma camisa, nem um tênis. Nem concretizei a ideia muitas vezes idealizada sobre lhe achar um curso interessante de algo interessante, aqui, na cidade maravilhosa. Talvez isso fosse presente mais meu. E presença mais sua pra mim que minha pra nossa constante saudade. Sou então uma filha ingrata, sem presentes, que se refugia num passado de muitas exigências sobre si mesma para pedir perdão por esta falta de atenção de agora. Sou sim. Na verdade sou uma filha que aprendeu que nada pode fazer por ninguém neste mundo. Uma filha que já muito matutou sobre como alegrar mais seus pais, seus irmãos, tios, avós, amigos. E só fez constatar que não se ajuda ninguém a olho nu. O que se pode fazer de mais transcendente por um semelhante é estimulá-lo com o silêncio do amor próprio e da busca pela própria e egoísta felicidade. É o que venho aprendendo a fazer. A duras penas, pois um filete de pensamento sobre a distância dos meus pais já me faz um instinto de mover rios e fundos (é assim a expressão?). No livro que estou lendo, de correspondências entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, há um trecho por este escrito que bem exprime essa coisa toda do meu “cômodo” aprendizado: Ninguém ajuda ninguém, e a verdade é que estamos sozinhos, cada um consigo mesmo. Não ajuda porque todo gesto, toda palavra, todo movimento desinteressado visando uma realidade fora da nossa é mais egoísta que o mais sórdido interesse. Porque nasce do orgulho e pressupõe um julgamento. Na verdade essas palavras estão a explicar as idéias nascentes sobre o livro “Os Movimentos Simulados”. Eu já me identificava muito com a Clarice nas suas complicações tolas e inúteis, mas agora lendo algo mais pessoal do Sabino venho me apaixonar perdidamente por mais este Fernando. Aliás, o Pessoa eu já amava. E, primeira e incondicionalmente, amo a pessoa tão evoluída que é o Fernando Barros. O Fernando que não escreveu nenhum livro, ainda. O Fernando que usa camisa furada e roupa descombinada. O Fernando que dá às coisas o valor que elas merecem ter, quando o merecem. O Fernando que não se sente obrigado a agradar os outros, fingindo não se importar com a fumaça de um cigarro. E também não se sente obrigado a confirmar presença em qualquer evento, porque simplesmente não sabe ainda se estará a fim de comparecer na hora marcada. O Fernando que não gosta de data de volta de viagem. Nem de ida. O Fernando impulsivo para comprar, que não pesquisa preço e também não se preocupa muito em saber se o que vai comprar é mesmo útil. Porque você é livre, pai. (Você, porque o Senhor está no céu). Livre da necessidade fazer o certo, perfeito e recomendado. Livre de orgulho. Livre porque sabe que esta vida é nada e nossa pequenez é tanta. Livre talvez porque sente uma eterna e irremediável saudade do meu avô que eu tanto quis conhecer. E sabe que matéria nenhuma alcança o verdadeiramente essencial. Fico pensando como você deve se alimentar todo dia de uma memória do seu pai, da mesma forma como eu faço aqui ao ver sua foto com mamãe na minha cabeceira. (Sei que a mamãe, ao ler isso, vai se sentir um pouco enciumada. Não, mãe, o papai realmente não é perfeito e tem sim defeitos que talvez eu mesma talvez não suportaria por 2 meses. Mas são diferentes apenas a forma de enxergar o mundo e o valor que as coisas adquiriram ao longo de uma experiência de vida. A estabilidade financeira vale bem menos pra quem não tem um pai por perto.) Eu só preciso falar aqui que eu te entendo, pai. Hoje, depois de muito me incomodar com algumas coisas diferentes do seu comportamento, depois de muito querer te ajudar e te mudar. (E depois de sempre me identificar mais com várias características da minha mãe, ainda existentes e muito felizmente também!). Mas hoje, pai, eu percebo que em determinados e importantíssimos aspectos você está anos-luz à frente. E, incrivelmente, sempre muito mais silencioso e resignado do que poderia ser. O silêncio tem sido uma virtude cada vez admirada nos personagens do meu mundo. Você me deu aula de silêncio e eu um dia talvez consiga praticá-lo. Por enquanto, sigo vomitando palavrinha pra debulhar sentimentos, “reprimentos” e os mais sofrimentos que a vida de distante me serve na bandeja. Em breve seremos cotidiano, e eu vou ouvir sons de guitarra paterna no lugar da tradicional TV ligada, sim?! E quem sabe você não ai me ajudar a trocar móveis de casa de lugar mensalmente? Rsrsrs

Amo você! Obrigada por ser tão pai…

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2 Responses to Mão no pescoço me guia

  1. Fernando César Barros Oliveira diz:

    Filha,minha alegria resulta da sua alegria e existência…

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