Roupa suja e centrífuga

 

A amiga insistia: – “O que há com você? Está com uma cara de desanimada… quieta… Você não é assim, o que houve?”. A resposta era confessar desânimo. E isso já era superexposição. Tristeza deixa a gente mole, sem vontade de falar, sem energia pra andar. Perde até vontade de tirar foto ou de escrever as palavras que desfilam na cabeça. A vontade é dormir. Dormir, mas não em cama de casa vazia. Vontade de dormir em casa cheia, ouvindo conversas, passos, barulho de panela de pressão e de louça dançando na pia. Dormir ouvindo barulho de família porque aí a solidão é só de âmago. Quentinha. Por muito tempo eu pensei que era mais feliz e mais forte que os outros. E também mais bem resolvida e menos solitária. Menos carente. Hoje eu talvez admita que se bater na casca ela racha. E quebra. Já quase tenho força pra descascar por completo. Obviedades sempre me irritaram muito. O que irrita e incomoda tanto é bom prato pra divã. Quero um ovo. Caipira. Gema amarelo ovo. Não vale gema amarelo claro porque isso vem de galinha infeliz residindo em folha de papel A4. Acho muito prepotente fazer economia com alegria de bicho: falsificar luz do Sol, engravidar de centenas de ovos e não permitir maternidade. Deve doer demais esses partos sucessivos de ovo frito. A gente evita pensar no que faz e no que alimenta com nossa necessidade infinita de prazeres curtos. Tem fotógrafo que congela inseto para depois derretê-lo em trocentos flashes. A gente fica feliz de ver onça no zoológico e despista quando cruza o olhar com a angústia dela. Refletir tanto sobre procedências é coisa de quem absorve tristezas precedentes demais. Sou muito sozinha nessa sensibilidade dispensável. Ficar deitado junto e sentir o quente da pele. Conversar pelo som da respiração. Mãos dadas. Um jeito gostoso de acordar era pelo nariz, com o cheiro do café de mãe. O meu “Room by the sea” já significou a luz do Sol e a brisa do mar me adentrando os pensamentos. Hoje parece que falta porta e janela. A luz não preenche. Sobra espaço. Falta tempo. Amor sobra e amor falta, as always.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Tá na hora do cuco sair de casa!. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s