Reflexo, do verbo refletir

 
Avessa às categorizações. Avessa não, porque isso seria uma categorização em si, uma crítica em si. Só não quero explicar pra ninguém o que se lê no “meu blog”. Não falo que é poema, porque nem sei explicar o que é poema. Que importa? Manoel de Barros estatuiu que “O poema é antes de tudo um inutensílio” e que “Poesia não é para compreender mas para incorporar”. Aliás, o Manoel me explana como ninguém: “Preciso do desperdício de palavras para conter-me”, “É um olhar pra baixo que eu nasci tendo”. Também não classificaria como prosa, porque tem hora que não segue nada e nem tem corpo. E também não defino prosa que não seja aquela de comadres na janela. E conheço prosador nenhum que lhe deu aforismos. Diário pessoal não seria também porque muitas vezes falo de outras coisas que não eu, como peças, filmes, textos, e principalmente pessoas outríssimas. Mentira! Pára tudo que é mentira feia. Isso é diário pessoal sim. Eu estou sempre falando de mim no início e fim das contas. Não deixo nada nem ninguém em paz. Estou nos filmes, nas fotografias, nos livros, nas peças de teatro. E estou principalmente grudada nos pés das minhas paixões platônicas. Em cada linha tem eu, eu mesma e sem Irene. Em cada letra tem dedo e escolha minha e uma porção absurda de sentimento e sensação meus. É narcisismo então, é espelho. Pode ser um auto-enaltecimento velado. Pode ser gritante. Mas eu nem queria que fosse assim, e é verdade. Queria férias de mim e deste achismo e observismo crônicos que me grudam em tudo. Queria escrever sobre o sapo com olhar jornalístico. Sem sensacionalismo e sem sal, porque crueldade de animal eu não aceito. Tá vendo? Eu de novo… Ditando o que pode, horrorizando com isso ou pirando com aquilo. É uma onipresença irritante e enlouquecedora. Eu não me perdôo. Então não categorizo deveras. O que escrevo são bulhufas. Amanhã pode aparecer só uma foto. E depois outra. E pode ser foto meses e anos. Pode depois juntar foto com letra e também com vídeo. Pode tudo e quem clicar cineasta vai xingar poeta. E quem trouxer coração pra ler pode ser mordido por foto de parede. Enfim. Expectativas do que sai de mim coleciono eu. O que sai de mim só a mim interessa a ponto de eu precisar fisiologicamente expelir. E vejo livro de fotografia e posso criticar algo por dentro, mas eu perdôo antes de língua minha tomar posse do feeling. Tem muito artista que quando se enxerga artista no espelho fica língua pura. E a crítica pura e simples se instala avassaladora na alma deslumbrada pelo achismo categorizado como Arte. Tudo que todo mundo escreve, desenha, pinta, fotografa, esculpe, cospe, tudo isso é só mesmo um cuspe. Com a pessoalidade de um cuspe. É sempre só a pessoa refletida nos milhões de espelhos de superfícies planas brilhantes. É só euzinha, vocêzinho, elazinha, nozinhos. Nada transcende sem olhinho de outro euzinho do lado de lá. Dialogo comigo em tudo que passa calado aos sentidos.

 

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