Ainda não achei a plenitude, mas com você é morno quase quente.

 

Meus passeios solitários de fim de semana estão ganhando asas. Começaram com um par de pés inquietos pilotados por uma mente tão mais inquieta quanto próxima da solidão. “Dia de Rua” trilhou sonoro os primeiros passos. Muito se permitiu aos sábados e domingos desde então. Bons programas dispensam companhias, assim como dispensam perguntas as boas respostas. De fato, não é qualquer amiga que me acompanharia num passeio pelas ladeiras de Santa Teresa em tarde ventosa e chuvosa de domingo. Ventosas dos pés alados seguem grudando em chão centenário, sanguessugas de deslumbramentos. Um evento chamado “Arte de Portas Abertas” não pode se fechar do meu mundo por falta de pisadas colegas. Um evento de artistas abrindo seus ateliês tem a linguagem dos corações falantes por mímica. Meus pés se acham compreendedores e marcham seguros em direção às mãos menos inseguras que as minhas.

A legenda é sair só, em busca de arte. É sentar-se no banco da praça, na noite nobre de um sábado, assistindo crianças incessantes no escorregador do parquinho, enquanto os pais se divertem com o show ao vivo de um grande jazzista. Tudo sem pulseirinha de ingresso. Tudo complementar e gratuito. Crianças eufóricas que ainda não se conscientizaram da magia do saxofone ou do violino que lhes preenchem os ouvidos. Velhinhos sentados sozinhos em outros bancos da praça, conscientes não apenas o som do saxofone, mas também do grito de saudade da pessoa amada que ele traz. Pobres mendigos, deitados em bancos das praças, entusiasmados e inéditos na vida de platéia, não sabem se o que se passa no peito é emoção ou perigo. Será que todos podem realmente olhar pelas frestas daquela janela? Estremecer, todo mundo deve? E se arte desabrochar um choro ou um gozo público?

É infinito o banco da praça onde cabe minha solidão sentada sobre os ísquios. Muito e muitos a se observar e sentir. Tanto pra se ouvir com encantamento. Pouco tempo e saliva para conversa sem alma.

Assim é que um sábado no despretensioso Largo do Machado preenche de coragem um corpo inteiro, o suficiente para subir o domingo próximo pelas ladeiras de Santa Teresa, cumulando sozinhês. Um mapa de viagem indica, organizado e gráfico, os ateliês expostos aos visitantes desbravadores. Escolhe-se uma rota, por intuição ou logística geográfica, e abre-se o peito para a Arte ventilar.

Aí é sempre o fio se desenrolando, um fotógrafo apontando um pintor, um ceramista lapidando uma gravurista, um cantor enaltecendo o artesão, o estilista desnudando a dançarina. E o tudo de mim que em nada se expressa sussurrando palavras soltas em cada curva. Sempre invejando o esgotamento de expressão alcançado por artistas firmes na sua forma mãe de expressão. Sobre o filme “A Música segundo Tom”, Nelson Pereira dos Santos explanou: “A linguagem musical me basta”. Compreendi o enaltecimento feito ao compositor naquela frase, mas a possibilidade de um artista ou pessoa qualquer se bastar numa linguagem única ainda é coisa que fascina e desespera minha mente linguaruda e nunca poliglota.

Seguir só talvez me ajude a conversar comigo mesma, talvez me aguce os sentidos para ouvir a voz que grita cá dentro.

Eu não sei quantas pessoas se sentam agora em bares com outras que só lhes ocupam a cadeira ao lado. Não sei quantos homens entediam-se com os papos de mulheres fúteis e belas, em drinques preparatórios da satisfação carne crua. Mulheres em festas onde a música não importa mais que a curteza do vestido e a dureza do bumbum. E também, não menos acompanhados e sós, os bêbados com suas cervejas e cachaças de todo dia. Não sei quantos são e quantas vezes fui eu mesma vítima desta necessidade de acompanhar.

Ainda tem vontade de alguém com quem se ande de mãos dadas, mãos ainda mais apertadas quanto mais distantes seguirem os corpos. Ainda tem esperança de alguém caminhando tão ao lado e tão dentro que não me tire pedacinhos de horizonte. Mas o conforto do bem vestida pra mim mesma vem seduzindo um gosto bom por mim.

 

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