Porque nunca falta cor numa foto em preto e branco

Em poucos minutos já consultei diversos sites sobre cursos de marcenaria, programas para desenho como AutoCAD e domus. Percebi que preciso realmente de aulas básicas de desenho para desenvolver a percepção do objeto tridimensional. E preciso desenhar também pra ilustrar meus livros pseudoinfantis, e para concretizar as roupas que invento na minha própria cabeça e costureira nenhuma acompanha. Também preciso desenhar alguns sonhos bizarros e super fotográficos que não cabem só no registro da narrativa por palavras. E para esboçar os quadros que minha insanidade costuma pintar na tela cinzenta desta caixola abençoada que me entope.

Desenhar é, pois, da ordem das primeiras necessidades. Então, o que fazer? Um curso de desenho. Uau, quanta astúcia, menina…

A preguiça que vem me consumindo nos últimos meses nem preguiça é. Trata-se de um estado psíquico de travamento total dos membros. Eu estou hibernando. Na verdade não é isso P nenhuma. Hibernando eu estava quando estudava 14 horas por dia e achava que todos os outros seres humanos a minha volta que não faziam o mesmo estavam perdendo tempo. Principalmente os então idiotas que usavam suas horas pedalando, ouvindo música, tocando guitarra, assistindo filmes, lendo blogs na internet. E vendo novela. (Mas estes eu confesso que ainda não perdoei. Talvez porque não tenho televisão em casa e por isso não consigo compreender empiricamente a forma de desenvolvimento do seu raciocínio. Ops, raciocínio?! Hum, deixa a crítica venenosa quieta, porque ela é sempre sintoma de inveja, mocinha. Leva pro divã!).

Enfim, naquela época infeliz da minha vida, eu abria e fechava as salas de estudo de bibliotecas e achava que era a mais esperta e estrategista do mundo por assim proceder. Porque eu ia passar num concurso, ganhar mais de dez mil por mês e experimentar a felicidade verdadeira. Pois é, esta era minha visão de mundo e eu inclusive tentava convencer os amigos que se permitiam doses diárias de felicidade de que era necessário sofrer, sacrificar-se, abandonar temporariamente os prazeres em troca da estabilidade financeira que traria a verdadeira fonte de plenitude. Meu Deus, como eu era chata e obcecada com isso. Nem sei como os amigos vivos (dos que respiram sem serrem respirados) me suportavam. Se fosse hoje eu mesma me dava voz de prisão. Ops, termos jurídicos não.

Gente do céu, nunca pensei que um ódio reprimido fizesse tão mal. Ou melhor, nunca pensei que uma paixão reprimida produzisse ódios tão potentes. Eu simplesmente não consigo olhar para um livro de Direito. Tenho asco, ojeriza, alergia, desprezo. Os colegas de trabalho comentam sobre provas de concurso, sobre jurisprudência, sobre aulas e eu só sei me arrepiar toda e aumentar o volume do fone de ouvido. Isso quando não aproveito e encaixo meu abafador de som modelo Mickey Mouse por cima do fone e fico lá, aliviada, curtindo o mundo de MPB sem juridiquês.

Já pensei que isso de inventar gosto pelas artes poderia ser fuga do compromisso e da frustração que inevitavelmente acompanham a vida de uma concurseira. Já me achei muito auto-sabotadora por causa disso. Eu cheguei a me imputar pena de chicotada mental quando me via sentindo vontade de ir ao cinema ao invés de assistir vídeo-aula de Tributário. Ou quando minha mão oscilava entre a pasta de mp3 do Los Hermanos ao invés da Constituição da República em áudio. Eu me desvirtuava, não me chicoteava deveras, mas a punição da consciência pesada já era uma tortura por demais corretiva.

Hoje continuo me vendo como uma auto-sabotadora da pior categoria. Mas houve uma mudança significativa na posição das peças no tabuleiro de xadrez. Agora sinto que são sabotadas as palavras que não escrevo. As fotos que não tiro, apesar de enquadrá-las e focá-las diariamente ao andar pelas ruas. As ilustrações que meu lápis não rabisca. A coreografia maluca e insistente que brota na minha cabeça e me faz dar pequenas e enrustidas reboladas ao andar o passo normal e carrasco da pedestre.

(No intervalo deste parágrafo senti aquela sensação libertadora de se permitir escrever muitas linhas sem culpa e isso me fez pensar que eu podia trocar o banquinho desconfortável de madeira pela cadeira do quarto. Troquei. A sensação boa me lembrou que ficar sentada escrevendo podia ser melhor ainda se eu tomasse um pequeno drinquezinho de algo para relaxar. Fui até a geladeira. Um rum e um uísque abertos. Mas nada gelado e doce pra misturar. Calma, uísque cowboy ainda é demais pra minha criação amedrontada pelo alcoolismo. Vi um latão de cerveja que eu comparara uns dias atrás para receber visita de amigas. Mas não, era muito grande pra se tomar sozinha em casa. Isso é vício. É feio. Voltei a sentar e rá!, advinha o que era o assunto?! Auto sabotagem e repressão. Fiquei tão aturdida que corri pra geladeira de novo, peguei o latão de cerveja, sentei na cadeira confortável em frente ao teclado, abri a lata me deliciando com o barulhinho de libertação característico de propagandas televisivas, e… Cá estou dando o primeiro gole libertário. Hummmm. Minha consciência frenética ainda grita: -Que horror, agora você faz apologia às bebidas alcoólicas no próprio blog?! Fico aqui me remoendo por alguns segundos e constato algo absurdamente esclarecedor: parênteses são prisões da alma!)

Eu estou extremamente ansiosa nestes últimos meses, neste último ano. Estou me sentindo cada dia mais perdida e desgovernada. E agora consigo vislumbrar que a sensação de perda seja ocasionada, paradoxalmente, pelo fato de eu estar me encontrando. Aham, é isso mesmo. Eu estou me encontrando aqui no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa onde eu nem pisara antes, mas onde estranhamente eu restava perdida.

Estou me encontrando ao retomar as aulas de ioga que procurei fazer por mim mesma há dez anos numa cidadezinha de interior onde pouco menos de cinqüenta pessoas se dedicavam ao hábito da respiração e das posturas cujos nomes remetem a bichos. Estou me encontrando nas aulas de dança contemporânea que também procurei fazer aos 15 anos de idade na única escola de dança deste tipo que a mesma cidadezinha do interior comportava. E me encontrando nos desenhos de móveis que eu costumava esboçar depois de medir as fitas de vídeo do meu pai, contá-las e calcular o tamanho apropriado para a estante do móvel da sala que estava saindo do forno da minha imaginação. Deus do céu, estou me encontrando ainda mais aqui nessas linhas estapafúrdias que escrevo nesse blog, e cujos brotinhos foram recém descobertos em diários escritos nos meus 08 anos de idade. Com oito anos de idade eu tinha paixões platônicas fofas e escrevia versinhos apaixonados para o menino dos patins da Praça do Rosário.

(Na ânsia de achar um culpado por eu mesma não ter seguido todos estes sinais de inclinação para a criatividade e para as profissões assumidamente artísticas, me pergunto se meus pais não deveriam ter feito alguma intervenção. Mas sim, eles fizeram, e talvez tenham estimulado tanto na minha primeira infância que exatamente por isso conseguir ser tão interessada por tanta coisa à medida em que fui virando uma pessoinha. Eu tive privilégios de uma educação aberta e interdisciplinar. Desde pequenina fiz aula de pintura, jazz, línguas. Pratiquei os mais variados esportes. Freqüentei colônias de férias inesquecíveis. Fui estimulada na leitura por vários membros da família. Tenho lembrança muito gostosa de me deitar na cama pra dormir e minha mãe se sentar ao meu lado abraçadinha para contar historias ou ler livros infantis de forma apaixonada e entusiasmada -inclusive ela adorava mudar a voz para cada personagem e cantar doce trechos musicados. Acaba de me ocorrer que eu talvez tenha até absorvido o complexo da baratinha, tantas foram as vezes que pedia pra minha mãe repetir a história daquela que tem “fita no cabelo e dinheiro na bolsinha”, “porém muito sensível e medo tudo lhe traz”. Perder o casamento pela gula é coisa de se muito refletir e tratar. Enfim, reflexões para outra oportunidade freudiana. O que importa é que eu tinha maravilhosas coleções de livros em uma das prateleiras que ficavam bem na cabeceira da minha cama e toda noite podia esticar o bracinho para escolher uma. Lembro-me com carinho especial das Aventuras de Pequenu, um homenzinho em miniatura que se aventurava embaixo de móveis de uma casa, na companhia de charmosos roedores. Tinha também o papai, quase toda noite, colocando as mais variadas músicas em alto e bom som, para todos na casa ouvirem enquanto faziam o que tinham de fazer. Teve vinil, fita cassete, CDs, e depois até aqueles canais de música da Sky. Ele sempre colocava caixas de som distribuídas pela casa e enquanto a música invadia os cômodos ele gostava de pegar sua máquina filmadora grande e pesada para filmar a gente brincando, dançando, lendo. As gravações hoje são uma relíquia que rendem boas sessões nostálgicas, com direito a muitas gargalhadas. Ah, e eu não podia esquecer a mania de reforma na casa e o interesse da mamãe por decoração, em especial pelos móveis. Tinha uma coisa muito gostosa de parar numa loja de móveis que tinha a arquitetura de um castelinho, no caminho entre Passos e Belo Horizonte. Era uma loja que minha mãe adorava e sempre queria visitar. Eu adorava a parte de ficar brincando num pequeno parquinho infantil que tinha no fundo da loja, mas também ficava encantada acompanhando minha mãe por entre os móveis expostos. Eu achava lindo minha mãe se fascinar por um ou outro móvel, e comentar sobre a cor de um, a qualidade outro, a combinação entre eles. Ela sempre teve muito bom gosto pra decoração e eu sinto uma saudade danada de ela se permitir essas “paradinhas em castelos na beira da estrada vida”.  Sim, foram muitas incontáveis intervenções para o desenvolvimento da sensibilidade e do interesse artístico, de fato. Eu posso inclusive dizer que sou cria pura, que tudo que sai de mim é mérito tão só deles dois, mamãe e papai. Se a escolha do Direito foi errada, não foi por não ter tido a oportunidade de me desenvolver em vários campos que se interseccionam em profissões mais artísticas e criativas).

Bom, voltando ao estado de reencontro de mim, que é encontro, e que é perdição, eu me entrego como um boneco de ar que enfeita posto de gasolina. Sou um boneco bobo que pode ter se deixado preencher de algo tão vazio quanto o ar por quase 10 anos. Um boneco bobo que prestou vestibular pra Desenho Industrial e Psicologia, mas se entregou à vaidade da advocacia. Pra variar, não estou tão certa se foi bobeira. Pode ser só aquela raivinha supramencionada de ter reprimido algumas paixões. A culpa não é do Vade Mecum. Na verdade nem tem culpa. Culpa. Culpa. Que palavra mais feia e tonelada.

Não me arrependo da faculdade cursada. Não mesmo. Exercitei leitura e escrita. E observei comportamentos humanos que ainda hão de me render muitos personagens. Comportamentos aflorados pela palavra litígio, e desvirtuados pela palavra causa. Vi pessoas extremamente mal resolvidas e tristes ganharem força e auto-confiança invejáveis ao vestir a armadura do terno e empunhar a caneta Mont Blanc. A experiência foi também reconfortante com os defensores públicos e funcionários de tribunal apaixonados pela possibilidade de ajudar pessoas, mais que pela ideia de acumular causas ganhas e volume no salário. Estas pessoas existem no Direito. Elas sobrevivem, cansadas e um pouco tristes com as cenas diárias de descompromisso que presenciam. Mas sobrevivem, sobrecarregando-se com os trabalhos daquele colega de profissão que prefere não realizar atendimentos ao público para jogar uma partida de squash às três horas da tarde. Ai, que alívio que dá saber que tem sim tanta gente boa e bem intencionada nas salas de audiência. Sinto-me mais confortável pra abandonar o barco e sair nadando em mar aberto, sabendo que ficaram marinheiros responsáveis e apaixonados a bordo. Ou um exército pequeno, com poucas e leves armas, que ainda marcha nos corredores de tribunais numa sincronia sutil e poderosa chamada esperança.

Volto-me novamente a mim mesma. Ao meu aparentemente fútil interesse pelo desenho de móveis e pela escrita de vivências pessoais. Volto-me à minha primeira e mais rapidamente saciável forma de libertação e expressão. A fotografia. A fotografia que sacia a ainda não desenvolvida técnica do desenho. A fotografia que capta um mundo infinito de sentimentos e sensações em fisionomias, cores, e cenas. Inicio um curso merecido e não me puno pelas horas e notas gastas nesse novo estudo. Agradeço porque ainda consigo me concentrar durante uma aula e anotar freneticamente as palavras mágicas de um professor. Esta Priscila não morreu, ela está aí e pode surpreender sempre na astúcia e rapidez de pensamento que a preenchem no ambiente de uma sala de aula.

Agora o pragmatismo lembra que eu preciso de uma câmera, sem exageros perfeccionistas na hora de adquiri-la. Uma câmera que realmente caiba no meu bolso, não importa se os demais colegas de turma apresentem-se bem mais potentes no investimento financeiro. Se eu não comprar a mais indicada (mesmo porque ela não existe, dada a subjetividade da categorização), então que eu aprenda com os problemas daquela escolhida. O que eu tenho a oferecer para o mundo da fotografia não é meu carrinho de compras, afinal. É a motoca insana pedalada pela observação compulsiva de quem caminha pelo mundo com o zoom de alma e o flash do encanto. Isso eu consigo dizer em forma de crachá depois de muito tempo escondendo o rosto. Vou pousar para fotos sem maquiagem.

O desenho é chapéu que engole cobra que engole a presa. Digestão dos traços pode durar décadas de observação.

                                                                                http://ims.uol.com.br/hs/haruoohara/haruoohara.html
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One Response to Porque nunca falta cor numa foto em preto e branco

  1. angelina diz:

    A tela da caixola abençoada não é cinzenta, tenho certeza. ela é multicor.

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