Ânimo!

Meu Deus do céu, que que eu faço com este infinito que é o cinema? Onde é que espalho esta glória, este transbordamento? Um dia conseguir viver uma emoção tão pura e não pensar, imediatamente, em meus pais?! Tanta coisa neste filme que seria fala minha pra eles… Tanta coisa dessas que nunca filho nenhum consegue dizer ou expressar porque fica preso no nó dos sentimentos assoladores dos laços familiares… O Cinema Paradiso mostra o dom, mostra a curiosidade e o interesse, mostra o deslumbramento pela sétima arte, que muito de todas artes é. Mostra uma criança e um mundo muito adulto a sua volta. A criança persiste. Ela chora, ri, faz travessuras. Persiste. Como deve ser persistente nossa ânsia de viver. Como eu preciso enxergar este ânimo em vocês, pais queridos, para então acreditá-lo existente em mim! O dono do cinema sempre a gritar “Ânimo! Ânimo!” é meu pai espantando a tristeza como se espanta gato de rua que tenta entrar na casa. Ah, meu pai! Que sábio eu vejo nele quanto mais eu entendo desta vida. Que lindeza eu vejo naquelas roupas que podem ser furadas ou descombinadas. E meu pai espantando a tristeza, sempre! Ele sabe que a melancolia é sorrateira. Ela se acomoda e faz ninho nos cantos da casa, e principalmente em volta dos móveis que se encostam na parede e no chão. Meu pai varre, espana a melancolia da vida trocando os móveis de lugar, quantas vezes forem necessárias. E jogando fora coisas que se grudam demais na nossa vida. Coisas que nos grudam no passado, na memória, num cômodo. Chicletes de nostalgia… Então meu pai muda a vida de lugar, assim, gritando sempre pra gente: “Ânimo! Ânimo!”. Paizinho querido, eu não agüento te ver de olhos baixos e tristes. Não agüento te ver desanimado. Porque desanimado significa que devia te gritar um “Ânimo” bem forte no ouvido. Eu finjo que não percebo, eu finjo de boba, pai. Mas eu choro por dentro e meu ânimo quase se esvai. Eu não posso, infelizmente, resolver a vida de vocês. Sei que não posso e preciso aceitar isso pra ser feliz na minha própria. Hoje eu pensei que as pessoas que mais me fizeram feliz nesta vida foram as que me apresentaram algo por que eu me encantasse. Eu que me encanto por quase tudo fui feita feliz demais por muita gente. E sei que ainda há muito por vir pra quem só engatinha no mundo do cinema, da fotografia, da literatura, da música. Mas é isso, esta perspectiva de um dia dar meus primeiros passos e depois correr veloz pela arte; é isso que me consola! É o que me move. É o que me anima! E eu sei, papai e mamãe queridos, que vocês também só precisam disso pra viver. Vocês precisam sentir e fazer sentir. Então eu poderia enviar uma dose diária de arte pra vocês todo dia. Assisto um filme cá e os Correios garantiriam a sessão de vocês no dia seguinte. A internet, mais veloz ainda, poderia nos conectar as emoções e deslumbramentos em tempo real. Eu ainda prefiro nós cinco juntinhos num quarto apertado, entre risos e outros sons familiares, vivendo junto “esta vida que não presta” do Drummond. Mas será que a distância já pode encolher numa sala de cinema virtual que nos deixasse ouvir a respiração um do outro e sentir o cheiro da pipoca carioca na sala de TV de Passos, Maringá ou Belo Horizonte? Eu preciso trabalhar nisso de estarmos próximos. Eu queria muito vocês aqui porque aqui é mais fácil ser feliz de chinelos havaianas e sem maquiagem. Eu vou trazê-los. Melhor, eu vou ver vocês com força suficiente pra vir por vocês mesmos. De carro, sem carro, com mala ou sem mala. Pra viver a Arte que o Rio distribui sem bilheteria, de graça, nas ruas. E talvez aqui, papai, o senhor (você, que está muito na Terra!) se encontre como eu me encontrei. Talvez aqui nos animemos todos, ao som de um bom samba, ao som de um bom Blues, Jazz, Rock, MPB, música clássica. Um DJ pra mudar as músicas e assistir a alegria e a emoção na fisionomia dos ouvintes. Um DJ que grite “Ânimo” através de cada música escolhida. Não é isso, papai, que te deixaria feliz? E é lógico, na pista, dançando, para sua contemplação, a mais linda de todas. A energia mais transcendente, a força da família inteira. Angelininha a bailar! Se eu fosse pintora este quadro seria minha obra prima. Mas eu preciso ser escritora, ai de mim! E acabei não comentando sobre o filme. Será que eu nunca vou conseguir me ater a um tema específico, falando tecnicamente? Será que eu esqueci mesmo de comentar? Talvez não… Talvez quando vocês assistirem ao filme, perceberão meu review através destes escritos desconexos. Eu assim espero. Afinal é aquela mesma coisa de sempre: o que a gente sente e o que a gente expressa. E um labirinto intruso se contorcendo no meio.

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One Response to Ânimo!

  1. Angelina diz:

    Oh my god!!!No words.

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