Alma Imoral: reflexões puras constroem a alma e as religiões

http://www.almaimoral.com/

Fui assistir à peça com uma expectativa bastante existente. Um conhecido (comigo muito parecido) se sentira muito tocado por ela, de forma desestruturante. Quase então que já me sentia também tocada; e havia uma expectativa da grandeza da improbabilidade de se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa. Logo no início, o olhar sereno e sábio da atriz, antes de subir ao palco. Logo no início, o primeiro tema passeava em comentários que eu fizera no mesmo dia, ao discutir despretensiosamente com um amigo sobre a racionalidade humana e a contraditória e perversa capacidade de afastá-lo da sua essência animal. Logo no início, pois, o que era pra ser um monólogo tornou-se um diálogo entre minhas costumeiras e incompreendidas reflexões e aquelas dramatizadas e concretas reflexões da intérprete. A nudez abriu alas se confessando produto da vergonha humana, da vergonha que nasce da alma moral humana. Alma moral que paradoxalmente se fundamenta na necessidade da procriação. Animais nunca estão nus. Animais nunca se sentem nus. Mas o ser humano, que se sabe ser humano, e exatamente por isso é ser humano, ele se sente nu sempre! E não se deixa virar bicho por isso, e continua não sentindo -de forma sincera- nem mesmo as atitudes pejorativamente apelidadas “instintivas”. O ser humano quase não se sabe e nem se assume bicho. Ele está sempre lutando tanto pra tirar a roupa como para colocá-la. Minha concentração fixou-se como raramente me é concedido pelos pensamentos compulsivos. Só algumas linhas internas me gritavam, às muitas vezes, que eu memorizasse aquela frase, aquele aforismo. Eu mal terminava de ouvir e clamava por uma releitura. Chorava- lágrimas também raramente concedidas por minha solidez emocional- a vontade de espalhar aqueles dizeres pelo ar. A nudez abriu alas e quem se abriu foi o Mar. Mas não sem antes ter sido adentrado. E isso é o que a menos catequizada sabia tanto quanto a mais delas. Isso é o que poucas igrejas querem explicar. Sobre a marcha “mar adentro”. Sobre marchar confiante em um acontecimento divino porque divino se sente o soldado. Não recua, não luta, não aceita, não se joga. Marcha! Logo veio a orientação para experimentar todos os potenciais sem hipocrisia, para assim também fazer bem aos impotentes que nos rodeiam. Comer carne, beber  vinho, o melhor do que for acessível, para só então compreender quem só acessa pão e água.  Não era o contrário.  Mais uma vez me senti dialogada e os demais expectadores evaporavam.  Abraão também sofreu efervescências mentais diante de decisões iminentes. Também lutou internamente e em silêncio contra uma ordem supostamente divina que lhe sacrificaria o filho nas mãos paternas e trêmulas. Ele admitiu a esperança louca e dilacerante de ouvir uma voz divina que desdissesse a ordem anterior. Ele ouviu. E só então constatou o óbvio e aparentemente intangível: a consciência/crença de que a religião e a divindade se formam individualmente. Mais um diálogo lindo sobre serem “divinos os mandamentos próprios de cada alma”. Concordamos também, mais uma vez, sobre a pior solidão ser a ausência de si. Ser perverso sempre é tolice, mas também é perverso ser o tolo de sempre. O tecido deslizando sobre o corpo, a vestimenta inquieta. Inquietude do ser humano em relação ao que vestiu e que o impede de ser animal? Uma vez uma pessoa me zombou quando eu disse que um filme podia mudar minha vida. Foi um tom de desdém que me fez ter preguiça de conversar livre com ela de novo. Minha vida muda com tudo, com filme, com música, com livro, com foto, com peça de teatro inclusive. As coisas me tocam e me desgovernam toda. Dá uma certa instabilidade pra mim, e uma incerta estabilidade para aqueles que querem ter sempre o que esperar de mim. Pode ficar mais difícil conviver pra quem não tem deslumbramentos a compartilhar, mas fica fácil pra quem brinca de flanar. Quem quer me ouvir contar, extasiada, que fui recém atropelada pela Arte?

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