Parir anonimato

 

 

Eu não sei bem o que está acontecendo comigo. Ou sei muito bem e não quero conceber. Da mesma forma como tenho consciência de uma mediunidade e não tenho coragem de encarar uma sessão espírita. É difícil quando tudo que você construiu como sendo seu percurso de sucesso profissional vai se desmoronando no prédio em frente ao seu. Dá frio na barriga de pensar que a estrutura é sempre a mesma (sempre o chão) e que meu prédio pode sofrer morte com aquele abalo também. Sei lá, um pouco eu até acho que tudo se abala com tudo e sempre, e nem precisa ter identidade de estrutura, de proximidade, de estilo, gênero e etc. Tem uma energia universal que comunica os fatos e que talvez até os produza. Minha psicóloga anda sugerindo que eu publique e assuma tudo que escrevo porque seria egoísmo não compartilhar. Egoísmo na medida em que não seria sequer um produto meu. Ela entende que o que fala na nossa cabeça através de palavras é o autor universal do mundo e que nós somos mero instrumentos. Pode ser, eu sou nada e nem entendo mesmo de onde vêm meus pensamentos compulsivos, minha insistência em formular diálogos e desenhar cenas com fisionomias e sentimentos tão delineados dentro da minha cabeça. Se for assim pra se assumir autora porque se sabe não produtora, será que fica mais fácil ceder a minha privacidade de “suposta” autora, que tem mãe, pai, tio, primo, avó, peguete e mais peguete por aí? Faz menos doloroso o parto? Acho que o auge do meu desespero me sonda tanto porque tenho lido muito sobre essa relação tensa entre o anonimato, a criação, o personagem e a vida pessoal de criadores sendo explorada para apimentar as vendas de tudo. Não acho certo ter que fuxicar o ser biológico para poder absorver a obra dele. Pesquisar uma biografia básica é contextualizar e aí sim, tudo bem. Mas dissecar a pessoa, as relações mais que pessoais que ela teve e enfiar o dedo nas feridas pra sentir a textura da carne, isso não. Isso me dá um medo absurdo. Nem devia, porque ainda que eu escreva algo de valor literário um dia, seria muito inusitado que alguém quisesse me entender como pessoa depois de me ler. Adoro a reclusão pessoal de Manoel de Barros, adoro a humildade e a simplicidade dele. Adoro ver a roupa da vaidade permanecendo na vitrine por tempos, e depois pendurada com desconto, e depois liquidada com placas de cores fortes, e depois quase doada ou abandonada na calçada. Amo quem consegue desdenhar o currículo Lattes pomposo. Amo isso de não dar a cara pra recitar self-made poem. Mas pode ser que eu ache isso tão lindo exatamente pra aquietar meu medo de dar cara a tapa. Pode ser pensamento conformista e de looser se disfarçando de admiração de uma virtude cristã. O que está acontecendo comigo é isso de se sentir escritora na medida em que eu escrevo na minha cabeça o tempo todo, e até dormindo eu acordo escrevendo e não sei quem está digitando pra mim. É se sentir escritora na medida em que me interesso por tudo, por todos e por toda forma de arte, em particular não particular. Sentir-me escritora porque termino de assistir um filme e preciso desacelerar meu deslumbramento para refletir sobre ele. E depois de uma aparente digestão eu preciso, meu Deus, eu preciso e preciso e preciso vomitar aquilo que me fez sentir tanta coisa. Vomitar com palavras. E assim de tanto continuar pensando nessas coisas sobre pessoas e de tanto ficar reparando em cenas aparentemente sem importância e de tanto filosofar sobre objetos, bichos e cores, eu estou quase me assumindo uma escritora deveras. Pode ser que eu ainda não tenha escrito nada que se possa chamar de obra literária. Por enquanto estou apenas na fábrica da minha caixola, perdida com a imposição de padrões de produção. Existe um software para o escritor que eu deveria dominar? O que sei sobre o mercado do livro infantil? O que quero eu saber sobre mercados se fujo do consumismo que me tenta? Não sei se vou conseguir estudar sobre o processo criativo pra domar minha mente inquieta e desgovernada. Não sei se vou ter coragem de comprar meu diploma de escritora em rodas literárias de blush e pó de arroz. Não quero precisar disso porque o que eu mais me apetece no que eu escrevo é exatamente esta independência, esta rusticidade, e até certo ponto, esta insegurança de quem faz algo amador. Pode ser também que eu já tenha me materializado numa escritora uma vez que me sento aqui na frente do computador do trabalho e não consigo parar de escrever estas coisas sem pé nem cabeça. E não consigo “trabalhar’. E pode até ser que tudo que já nasceu neste blog ingênuo, inseguro e inconsistente possa ser apelidado de obra escrita. Esqueci de falar que é anônimo o que eu escrevo. È ingênuo, inseguro, inconsistente e anônimo. Eu não sou Laura Albert, nem J.T. LeRoy, nem Priscila Hipólito. Nem advogada, nem bailarina, nem ciclista, nem minhoca. Eu sou a mutifuncionalidade de uma espátula.

 

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