Novas mãos à obra

Quando entra num bar um bêbado maluco e inconveniente, a gente tem que evitar dar papo. A gente tem que disfarçar e sair e pode até usar de tom agressivo nessa hora. Eu não consigo fazer o que se tem que fazer pra evitar malas sem alça no meu pé. Eu sempre acho que tem algo a ser explorado e respeitado no ser que incomoda tanto com sua carência reluzente. Ontem, por incrível que pareça, eu tive uma aula de como evitar pessoas bêbadas pouco antes de você pisar no mesmo chão meu. Você tinha/tem tudo pra ser destes que se embebedam e saem puxando conversa com qualquer rabo de saia. Ainda assim eu dei corda. Minhas lentes de esperança samaritana pontuaram alguma transcendência no olhar. Se eu tivesse dado as costas e continuado a conversa com o bom partido engomadinho que me esperava, você teria tido a mesma pequenez pra sempre. Àquela época, eu estava muito feliz, harmônica e plena na minha relação com a reforma de um apartamento. Espátulas , rejuntes e tintas me levavam ao delírio; e a obra era toda possível no pensamento forte das minhas duas mãos tamanho PP. O mal humor de alguns pincéis me surpreendia de um jeito humano . Era, enfim, uma relação consolidada e estável comigo mesma, trabalhada na análise, na ioga, na dança e na espiritualidade. Sambinha nenhum podia atrapalhar. Mas samba fez raiz inusitada. Ainda tem indecisão quanto à cor da parede da sala, e não adiantou eu querer concretizar tudo junto na sexta-feira. Alguma indecisão sobre o que eu sou e o que quero da vida vai sempre existir e eu acho isso bonito e indicativo de que eu amo muita coisa sempre. O que sempre se demanda é amor (esse inassíduo). Hoje eu refleti de novo sobre a necessidade de alguém pra matar uma garrafa de vinho comigo enquanto eu invento uma massa com o que tiver na geladeira. Vem sempre o pensamento autosuficiente de montar estoque com garrafas individuais (aquelas pequenininhas de nãos sei quantos emeéle). Só que isso não combina com a adega que eu já desenhei pra minha sala. Falta mão quente e abraço apertado neste apartamento gelado pela ardósia verde. Falta alguém elogiando meu cheiro e propondo insistentemente um prazer silencioso e nu. E tem um líquido inteiro e despudorado tentando sair de dentro de mim na sua presença. Tem uma língua desgovernada e absorvente pra lamber o cheiro seu. Uma língua tão ágil como a de um sapo para capturar seu gozo voando no ar. Na quinta-feira não faltava isso. Na quinta-feira só faltava passar massa corrida na parede, lixar madeira, pintar, envernizar, trocar puxador, escolher tapete, mudar móvel de lugar, instalar prateleira, comprar gravuras, tirar manchas de tinta do chão…

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