Quarto-sala-banheiro-cozinha-varanda. Tudo é tão cheio de chão!

 

Eu não queria transformar isso nitidamente em um blog de desabafo pessoal.  Não sei por quê sempre evitei isso, mas também tem tanta coisa que sempre evitei e que ultimamente tenho me surpreendido executando… Se é pra quebrar tabus, que seja com uma paulada só: igual aquelas lutas marciais em que os caras quebram vários tijolos empilhados com um murro certeiro. Aliás, um pré-conceito revisado foi o próprio blog, que saiu do armário depois de tantos anos de escrita enrustida. E, por mais que ainda seja quase um diário (praticamente só tem eu de leitora e algumas amigas suspeitas que me elogiariam até depois de uma baliza tremida e arranhada de carro), eu ainda assim tenho gostado do efeito libertador que ele me proporciona. É como se eu estivesse aliviada por poder prestar contas da única coisa que realmente tenho disciplina em fazer: escrever bulhufas! A única coisa que faço com freqüência e insistência, ainda que não se materialize em palavras visuais e permaneça apenas na minha caixola. Mas o fato é que constatei que a escrita pode sim ser a ferramenta que eu sempre busquei pra mudar alguma coisa no mundo. Pode ser arma difusora de amor, do meu arsenal de amor pólvora! E assim, fugindo dos estudos para concursos públicos em atos repetitivos de auto-sabotagem consciente, eu venho me render à escrita mais uma vez e em nova forma: desabafos sem estrofes. Talvez seja até melhor assim já que eu nunca soube rimar nem estrofar nada mesmo. Já que eu nunca sei dizer o que diferencia a poesia do cinema, ou a prosa do ballet contemporâneo. Já que eu nunca lembro o nome de autor nenhum, e os versos já lidos e tão sentidos sempre somem no buraco negro da minha memória. Quando eu tomei a coragem para escrever aqui na casa da Dona Internet das Dores, eu tinha uma pretensão bem “banco de dados”: eu queria registrar meus pensamentos numa tentativa de trancar minha memória dentro de mim mesma e queria guardar a prova de que eu não estava tão à toa assim durante quase o tempo todo da minha vida em que alguém me viu paradinha olhando pro nada. Eu estava escrevendo por dentro, e isso tem que ser reconhecido como um trabalho, ora bolas! Não precisa configurar relação nenhuma pra CLT ! Não precisa vincular ninguém e muito menos a mim mesma. Só podia ser mesmo um consolo, uma desculpinha fajuta destas que não convencem, mas acalmam o coração do alvo da mentira. Podia me render uns sorrisinhos compreensivos quando eu ando pelas ruas com o meu olhar curioso de quem está reparando pra depois descrever. Tem muita gente que eu observo por aí que me pega em flagrante neste meu olhar estuprante e sorri como quem diz: eu sei o que você está fazendo. E é curioso que a pessoa parece estar gostando, parece complacente. É este sorrisinho que me conforta, porque parece que a pessoa está deliberadamente alimentando minha luxúria literária. Eu fico me sentindo boa de cama… Porém, como minha opinião de menina criada no interior de Minas é de que pra ser bom o sexo deve ser de amor, eu quero acreditar que a minha desenvoltura nas artes sensuais seja proporcional à quantidade de amor que me recheia. Amor pelos moços perfeitos que já enxerguei na minha cegueira platônica, amor pelas amigas mentirosas que puxaram meu tapete enquanto eu tentava ajudá-las, amor até pelos irmãos que não souberam reconhecer minha doação de irmã mais velha. Amor inadiável pelos meus pais, avós, tios. Amor neurótico pelos velhinhos trêmulos que andam sozinhos nas calçadas. Amor pelas árvores que são meus pulmões mais fundo-respirantes. Enfim, se servir pra sprayar amor, eu fico aqui a escrever não remunerada, num prazer de avó que deixa neto comer doce antes do almoço sem a filha-mãe ver. No fundo, eu sei que só escrevo pra esvaziar carência intracorpórea. Mas quem é que consegue guardar ela toda sem liberar um pouco, nem que seja pelas glândulas sudoríparas? Eu até tento não concentrar minha vontade de mundo na vontade de dormir de conchinha. Eu até tento ver exposição de quadros coloridos ao invés de procurar a imagem dele num bar. Eu até tento escrever pra não pra não fazer cafuné de mão na nuca dele. Mas des-abafar carência é infinito. O que eu quero no fim das contas é fazer suor buchechudo. Com ele.

 

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