Excursão

Se a gente pensar bem, percebe que o maior medo que tem é da solidão. Não é o da morte. O que tememos na morte é a solidão aparentemente eterna que ela representa, e no fundo cultivamos a esperança de que seu mistério possa traduzir alguma companhia. Tudo que a gente não sabe da morte, a gente inventa com boas e saudosas companhias. Algumas religiões oferecem um paraíso de virgens , outras um plano novo repleto de almas vestidas de branco, e até o inferno é sempre proposto com uma multidão de habitantes. Nem no inferno, onde as companhias não devem ser as melhores, nós preferiríamos ficar sozinhos. Se tivéssemos certeza que a morte proporciona reencontros, ou ainda primeiros encontros com um semelhante qualquer, a idéia seria bem menos dolorosa. Ainda que não nos rodeassem os seres queridos, conforta-nos a opção de um anfitrião qualquer para nos abrir as portas da imensidão. Um anfitrião feio, chato, bobo, que falasse outra língua ou até mudo mesmo. A simples “existência” de um outro ser (vivo, mas morto!),na mesma situação minha, já me tranqüilizaria bastante para entrar neste barco. Assim como na própria vida em vida, o homem não sabe conviver com a solidão, e precisa de alguém com quem possa compartilhar suas experiências, e sua dor existencial. Pode não ser aquele companheiro perfeito que alguns têm a sorte de bem escolher; ainda que seja um encosto, um estorvo, muitos consideramos melhor do que chegar desacompanhado na festa. Nem que seja para compartilhar sua dor, sua tristeza, seu desencanto, ou a própria solidão que se carrega por estar ao lado de alguém que não é um companheiro de essência. Minha avó falava, quando alguém querido morria, que o céu devia estar em festa para receber o recém-morto. Era gostoso imaginar estas cenas que ela propunha, eu conseguia ver aqueles tios e avós só conhecidos por foto, reunidos todos de braços abertos para receber o parente falecido que eu conheci e não queria imaginar sozinho tão longe. Eu mesma me confortava com a idéia de que ela- minha avó, por ser mais velha, apesar de morrer um dia, estaria na minha festa de boas vindas com aquele mesmo olhar hospitaleiro que sempre me afaga até hoje. Mas estas cenas e histórias contadas por pais e avós – que só nos querem felizes e com pensamentos frívolos- não são as que passam no filme da nossa maturidade. Mal a gente cresce e já começa a enxergar o horror da solidão em 3D, como no quarto escuro antes de dormir. Às vezes até ouvimos barulho no escuro da noite de insônia e pensamos ter medo do que estaria por perto sem a gente saber. Na verdade, o próprio medo pode ser uma forma ilusória de maquiarmos a consciência da solidão. Para não nos constatarmos sozinhos numa madrugada, somos capazes de inventar , ouvir, e até enxergar monstros, vultos, luzes, bichos. Que o medo, então não nos deixe sozinhos, e permaneça fertilizando nossa imaginação de colegas solidários e presentes em nossas horas a sós. Não é à toa que todos os momentos mais alegres da vida se concretizam em festas: com os amigos, parentes e pessoas queridas ao nosso redor. O ideal de reunir pessoas e compartilhar realizações é o ápice da felicidade humana, seja numa mesa de jantar, num batizado, num casamento ou no próprio velório. Velório: tentativa de preencher o vazio da morte de quem nos deixou, de estocar-lhe companhia para o sempre que lhe começa. Todos chegam e cedem um pouquinho de si para que o morto carregue de alguma forma na escuridão do caminho mais desconhecido de todos. Mais desconhecido, apesar de tão desbravado. Nenhum mapa deixado, nenhum roteiro. E tantas viagens…

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One Response to Excursão

  1. Angelina diz:

    Mais desconhecido apesar de tão desbravado…nenhum mapa deixado, nenhum roteiro…e tantas viagens… LIndo!

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